Navigation Menu+

Molduras vazias

por

Antigos cinemas de rua se escondem na paisagem de Belo Horizonte

Cine São Carlos

Cine São Carlos // foto: Bruno Paes

 

No Cine Metrópole estavam os filmes mais elegantes – de longas de Hitchcock a comédias românticas e musicais da MGM. Para filmes mais sérios e de arte, Candelária, Art-Palácio, Jacques e Pathé eram boas opções. Se quisesse ver filmes de aventura desenfreada, era só ir ao Cine-Theatro Brasil. Passeando pela Belo Horizonte de meados da década de 1950, o cinema estava por todos os lados. Acaiaca, Art-Palácio, Candelária, Glória, Guarani, Palladium, Tamoio e Tupi (que depois passou a se chamar Jacques) completam um trecho do trajeto cinematográfico que transbordava os limites da Avenida do Contorno. Seria impossível enumerar de cabeça todas as salas de cinema que habitaram as ruas da cidade de bares e distintos horizontes. Quase uma centena e meia de salas abriram e fecharam as portas em Belo Horizonte ao longo de um século.

O cinema e a cidade

A primeira exibição cinematográfica no Brasil aconteceu em 8 de julho de 1896, um ano depois da primeira sessão realizada na França pelos irmãos Lumière. No mesmo ano fora aprovada a planta da Cidade de Minas, a ser edificada no Arraial de Belo Horizonte. O projeto traduzia o anseio pela superação da vida rural e arcaica do velho lugarejo colonial, ponto de partida para a nova capital. Na virada do século XIX para o XX, jornais, cafés, bilhares e orquestras perseguiam o ideal de uma vida agitada e cheia de passatempos. E, em termos de modernidade, nada ultrapassava a invenção dos irmãos Lumière.

Em 1906, a empresa José Poni & Teotônio Caldeira instalou o primeiro cinematógrafo da cidade no Teatro Paris, localizado à Rua da Bahia. Inicialmente destinado à alta sociedade, na primeira década do século o cinema logo se popularizou. As salas se tornavam exponencialmente maiores e o público mais diverso. Nas décadas de 20 e 30 surgem os grandes cinemas inspirados nos movie palaces americanos que, em um período de divertimentos limitados, se tornam os centros de lazer da cidade.

Filas davam voltas e mais voltas nas grandes salas da capital. Dos grandes cinemas, com seus dois mil assentos e três andares, até as pequenas salas de bairro espalhadas pela cidade (que não possuíam menos de 400 lugares – mais assentos do que as maiores salas em shopping centers), o cinema era o lugar para se estar nos finais de semana. Mesmo com suas dimensões gigantescas, as grandes salas permaneciam lotadas. Às vezes filmes chegavam a ser lançados simultaneamente no Cine-Theatro Brasil e no Cine Acaiaca – lotavam a primeira sala, de 1.700 lugares, e ainda sobrava gente para subir a Rua da Bahia rumo à segunda.

Enquanto os cinemas do centro da cidade eram points nos finais de semana, as salas de bairro eram extensões dos lares e convites para o desbravamento da cidade. A expansão de BH para além da Avenida do Contorno estimulou a construção de cinemas afastados do centro – o primeiro deles foi o São Carlos, em 1939, na Rua Padre Eustáquio. Nos anos seguintes, salas se espalharam por todos os cantos da cidade.

As grandes estreias sempre aconteciam nas salas centrais, e depois seguiam para as demais – era a chance de assistir ao filme que se tinha perdido, ou de ver novamente àquele filme de que se havia gostado muito. Isso porque, depois de exibido, o filme permanecia vivo apenas na lembrança. Naquela época não se podia contar com a internet e nem mesmo com DVD, VHS ou TV para assistir aos filmes que não se tinha visto no cinema. Eram comuns que, de tempos em tempos, clássicos fossem reprisados nas grandes salas de cinema – mas isso poderia demorar mais de cinco anos, período no qual os longas ficavam praticamente inacessíveis.

Cine Eldorado

Cine Eldorado // foto: Bruno Paes

O fim das coisas

“Exijo em nome da lei ou fora da lei
que se reabram as portas e volte o passado
musical,waldemarpissilândico, sublime agora
que para sempre submerge em funeral de sombras
neste primeiro lutulento de janeiro
de 1928”.

Os versos de O Fim das Coisas, de Carlos Drummond de Andrade, deixam claro: a dor sentida ao se constatar o fim até mesmo dos cinemas mais vagabundos é uma mesma dor que atravessa gerações. O motivo do lamento do poeta é o fechar das portas do antigo Cinema Odeon, então localizado na Rua da Bahia. “Quero é o derrotado Cinema Odeon, o miúdo, fora de moda Cinema Odeon”, suplica em vão o poema-protesto, escrito no final da década de 1920. Não houve lei ou fora da lei que impedisse a cidade de mudar e estes versos continuaram a ser repetidos nas décadas de luto por outros espaços que tiveram o mesmo fim.

Os cinemas seguiram a urbanização da capital. Belo Horizonte, cidade planejada para os limites da Avenida do Contorno, viu surgir em cascata na década de 20 e 30 uma série de espaços de exibição em sua região central. Nos anos 40 e 50 os cinemas se expandiram rumo aos bairros, em reflexo da transformação pela qual passava BH. Era um segundo surto de crescimento e modernização, permitido pela construção da Cidade Industrial Juventino Dias e do conjunto arquitetônico da Pampulha. A ânsia por progresso e modernidade era visível na paisagem que parecia não tolerar a permanência. A urbanização mudava as ruas, fechava cinemas, permitia a abertura de outros.

Mas a cidade passou a se movimentar em um ritmo que os 24 quadros por segundo não conseguiam acompanhar. A TV ganha força e se torna o entretenimento preferido. O surgimento do VHS só consolida a opção pelo sofá de casa, o que provocou, no mundo inteiro, a queda significativa do público das salas. As famílias passavam a temer a violência nas metrópoles.

O público minguou: dados do portal Filme B indicam que as plateias que na década de 70 contabilizavam quase 300 milhões de pessoas ao ano, na década de 80 e 90 chegam a quase esbarrar na marca de 50 milhões. As enormes salas começaram a sofrer com a falta de renda e com o descaso dos proprietários. Estruturas decadentes e sem manutenção passaram a abrigar fitas de qualidade duvidosa: os exibidores optaram por “investir” em filmes de artes marciais (Bruce Lee era figurinha fácil nas salas) e em filmes eróticos, ambos oferecidos ao exibidor a um custo muito baixo, prometendo uma boa lucratividade. Mas, passado o efeito de novidade, as pesadas cortinas começaram a se abrir para uma plateia diminuta ou deixaram de se abrir em absoluto, sucumbindo aos efeitos da crise.

A inauguração do BH Shopping, em 1979, foi um marco na mudança dos hábitos e rituais envolvendo as salas escuras. A Paris Filmes inicia na cidade suas atividades como exibidora inaugurando no primeiro centro de compras da capital mineira o Center 1 e 2. O Center 3 veio em 1988. Ao lado de lojas e restaurantes, o grupo inaugura no Shopping Cidade mais três salas. A Paris Filmes se torna a segunda maior exibidora em BH. Mais que isso, a iniciativa mostra que o cinema voltava a ser empreitada lucrativa, estimulando novos investimentos. Era o início da reconfiguração da exibição cinematográfica na capital. As novas salas não possuem nomes, mas sim números. Dessa forma não há margens para o engano: não estão ali para intimidade.

Estava decretado o fim das matinês de domingo, dos seriados exibidos nas telonas, do Jornal Canal 100 – e seu resumo do futebol –, dos cinemas de bairro frequentados por adoráveis bagunceiros que pertencem a um passado idealizado que, assim como os filmes que ficavam sumidos por anos, só está vivo na memória.

Cine Candelaria

Cine Candelaria // foto: Bruno Paes

Retratos perdidos

O destino foi cruel com quem ainda sabe situar as salas no espaço urbano. As que não foram demolidas estão escondidas em meio à paisagem de concreto, difíceis de localizar (leia mais em Perdidos na paisagem). Das dez mais famosas salas do Centro, três guardam ainda seu caráter cultural. Desde 2008, o antigo Cine Guarani, localizado na Rua da Bahia, abriga o Museu Inimá de Paula, com mostras permanentes do pintor mineiro que dá nome ao espaço e exibições itinerantes. O Palladium viu suas portas reabrirem em 2011 como complexo cultural denominado SESC Palladium – com um grande teatro de 1.321 lugares, teatro de bolso com 80 lugares, galeria de arte, espaço multiuso, café e uma pequena sala de cinema com apenas 90 assentos e programação gratuita. O Cine-Theatro Brasil, renomeado V&M Brasil Centro de Cultura, segue a mesma linha, e, após mais de seis anos desde o início das obras, tem inauguração prevista para setembro de 2013.

O resto do passeio pela cidade é melancólico. O Cine Acaiaca, localizado no subsolo do famoso prédio belorizontino, abriga hoje uma igreja, como tantos outros cinemas de bairro. Do Cine Candelária, um dos maiores cinemas da capital, localizado na Praça Raul Soares, só resta uma fachada pela metade. Foi destruído por um incêndio em 2004, nove anos depois de sua desativação. Hoje é movimentado apenas pelo entra e sai de carros. Quem olha com atenção para o interior do estacionamento pode ver uma pintura na parede que guarda o último suspiro do passado.

Já o tradicional Cine Jacques (antes Cine Tupi) está localizado sob o Shopping Cidade, um destino parecido com o dos cines Glória e Art-Palácio, que abrigam lojas no interior de suas estruturas modificadas. O último, localizado na Rua Curitiba, possui ainda intacto o letreiro, escondido entre vários sinais das lojas Ponto Frio, encabeçados por uma placa pouco sutil em que se lê “cineshopping”.

Talvez o mais emblemático e doloroso fechamento tenha sido o do Cine Metrópole, cujo passado remonta ao início do século XX. Inaugurado em 1909, o Teatro Municipal tinha linhas que aspiravam modernidade. Foi criado para ser símbolo do progresso e abrigar a programação cultural de uma cidade ansiosa pelo crescimento.

Na década de 30, o art-decó era o que havia de mais atual e refinado na arquitetura e o prédio foi reformado para combinar com a paisagem sempre mutante. Não era o suficiente. Na década seguinte, Juscelino Kubitschek definiu que a cidade precisava de um espaço ainda mais arrojado – se anunciava a construção do Palácio das Artes e o estado abre mão do prédio do Teatro Municipal em 1941. O seu destino poderia ter sido o abandono, não tivesse sido adquirido pela empresa Cine Teatral, que reinaugurou o espaço em 1942 sob o sugestivo nome Cine-Teatro Metrópole, na confluência das ruas Goiás e Bahia, com capacidade para mil pessoas. Comprado no ano seguinte pela Cinemas e Teatros Minas Gerais, a sala foi uma das mais importantes da cidade durante os 40 anos que se seguiram.

Para os frequentadores, o ritual do Cine Metrópole começava pela compra de balas de coco queimado e chocolates. Lá dentro era uma festa: oferecia três matinês todos os dias da semana e o agitado segundo andar era o preferido da garotada. Junto ao Cine-Theatro Brasil, era a sala das grandes estreias, em que enormes filas se formavam para conferir os filmes MGM. Era a época dos famosos musicais, em que Fred Astaire, Judy Garland, Gene Kelly, Frank Sinatra e Cid Charisse encenavam números envolvendo as canções inesquecíveis cantaroladas ao final da película.

Isso até a chegada dos anos 80, marcados no país por uma intensa crise econômica, e em Belo Horizonte por violentas modificações no espaço urbano. A comoção foi imediata quando, em 15 de abril, o Banco Bradesco pagou à Cinemas e Teatros Minas Gerais Cr$ 150 milhões como sinal pela compra do Cine Metrópole. Na tentativa de reverter a situação, a cidade se agitou. Entidades culturais, em parceria com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais e com a assessoria técnica da Fundação João Pinheiro, pressionam o governo a fazer o ato de tombamento da edificação. Foram meses de reuniões, informações desencontradas e manifestações em frente ao cinema.

Apesar da indefinição, o Metrópole ia desaparecendo lentamente: primeiro foram removidos os cartazes de Tootsie, filme de Sydney Pollack com Dustin Hoffman e Jessica Lange, o último a ser exibido na sala. Em seguida foram as cortinas e cadeiras. Janelas e portas foram tapadas para que o resto do interior fosse destruído sem interferência dos incômodos olhares de dor que viam toda uma história ser reduzida a pedaços partidos de concreto. Por fim, a “casca” veio ao chão. Hoje, quem sobe a rua da Bahia só tem como prova de sua existência está na sutil homenagem póstuma: café e hotel, vizinhos do antigo cinema, adotaram “Metrópole” como sobrenome.

>> Veja também: Perdidos na paisagem [Ensaio - Cinemas de Rua]

Cine Metrópole

Cine Metrópole // foto: Bruno Paes

Jessica Soares Jessica Soares (2 Posts)

Jornalista formada pela UFMG, com formação complementar em Artes Visuais. É redatora do site Pra Ler [http://praler.org/] e do Superlistas [http://super.abril.com.br/blogs/superlistas/], blog da Revista Superinteressante.


Pinterest

Fatal error: Uncaught Exception: 190: Error validating application. Application has been deleted. (190) thrown in /home/storage/e/a6/6c/revistamarimbondo/public_html/mais/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273