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Construindo territórios

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Pichações inscrevem em muros, prédios e viadutos discurso que reescreve a ordem da cidade

Pintada como mero vandalismo pelo discurso hegemônico, a pichação é chamada pelos próprios pichadores (não sem um tom de ironia) de “detona”. As pichações não chegam a explodir edificações, mas abalam as estruturas da sociedade dominante, podendo desconstruir sua harmonia de fachada e construir outros territórios – territórios que vão além de sua natureza física e incluem também dimensões simbólicas e políticas que demarcam um espaço constituído por relações de poder, exercido não só pelo Estado, mas por quaisquer sujeitos e grupos.

Reconhecida como um crime, a pichação, por outro lado, também é vista como um elemento importante da cultura urbana brasileira e defendida como um ato político. Estudioso do assunto, o geógrafo Marcos Leandro Mondardo afirma que as pichações demarcam territórios de resistências nas cidades. “A pichação é normalmente vista como um ato de transgressão à ordem, à lei e até mesmo à estética das cidades. No entanto, temos que atentar para o fato de que a cidade, como qualquer outro espaço, é uma produção de sujeitos hegemônicos e subalternos. (…) Por isso, quando um muro, uma fachada, um monumento ou um viaduto é apropriado pela pichação ou grafite, esses espaços se tornam territórios, na medida em que são dominados por uma expressão simbólica-cultural-artística associada, em grande parte, a uma política de transgressão e ou de reconstrução de valores na sociedade”, argumenta o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

A pichação – ou pixação, na grafia adotada pelos praticantes – é um tipo de grafismo urbano ilegal endêmico no Brasil. Feita à tinta, geralmente é monocromática e fundamenta-se em letras estilizadas criadas pelos próprios pichadores, compondo os chamados “alfabetos”, usados nas “presas” (pronuncia-se o “e” aberto), suas assinaturas.

Inscrições urbanas nesses moldes começaram a aparecer nas cidades brasileiras a partir dos anos 1980. Prolongada até meados daquela década, a ditadura militar (1964-1985) teve influência no surgimento da pichação. Além de ter recebido a herança dos protestos contra o governo, seu estilo único no mundo é reflexo indireto da censura, que dificultou o contato com o graffiti de Nova York, surgido na virada dos anos 1960, coincidindo com os anos de chumbo (1968-1974) por aqui.

“O graffiti brasileiro distingue-se do cenário norte-americano e europeu devido a um certo isolamento do país e à dificuldade de obtenção de informações durante as primeiras décadas de expansão desta linguagem a partir da experiência novaiorquina, da década de 1970, principalmente antes do advento da internet”, escreveu a doutora em arte Deborah Pennachin na tese Subterrâneos e Superfícies da Arte Urbana: uma imersão no universo de sentidos do graffiti e da pixação na cidade de São Paulo [2002 a 2011], defendida em 2012. Restrições econômicas, como ao uso da tinta em spray, também estimularam os brasileiros a criarem estilos e técnicas próprios. “Dessa forma, o graffiti no Brasil apresenta características específicas, podendo ser entendido como fruto de um processo antropofágico de assimilação do graffiti norte-americano, baseado na improvisação, na superação de limites e na quebra de regras (…)”, completa a autora.

Cartografia reescrita

Concisas, as pichações muitas vezes restringem-se a assinaturas. Quando muito, são acompanhadas por siglas, as quais costumam fazer referência a bairros ou regiões de um município. Em sua economia de texto, a pichação reescreve a cartografia da desigualdade social. O filósofo Daniel Mittmann reconhece que pichadores sustentam esse discurso, não necessariamente nas próprias pichações, mas em conversas. “Sempre levantam o tom de voz para afirmar que a pixação é uma prática cultural que quer impacientar a sociedade, que busca questionar a forma como a cidade é dividida de forma desigual. Os pixadores (em geral, salvo exceções) são os sujeitos que vivem na borda da cidade, lá onde acaba o mapa (social, cultural, político) urbano. Mas esses sujeitos-pixadores não se limitam às bordas, eles insurgem no centro, nas centralidades, e mostram que existem”, afirma o professor da rede estadual de São Paulo.

Em Belo Horizonte, quando da explosão inicial da pichação, na primeira metade da década de 1990, algumas das siglas pichadas eram DP (Demônios do Planalto), DPC (Demônios Pichadores da Cachoeirinha), DNC (Desordeiros do Nova Cintra) e GZO (Galera da Zona Oeste), conforme listou o antropólogo Andrei Isnardis, na monografia Pichadores e pichações na cidade de Belo Horizonte, apresentada em 1995. O mapa oficial da cidade também aparecia nas siglas ZN, ZL e ZO, indicando as zonas norte, leste e oeste da capital mineira. “Vale registrar que não vimos nenhuma pichação acompanhada da sigla ZS”, pondera o antropólogo, referindo-se à região Centro-Sul da cidade, onde se concentram os bairros mais ricos, que, embora não “representados”, também são origem de pichadores.

Pixo, logo existo

Antes de levantar a voz pelo direito à cidade, o pichador dá um grito de existência. “O pixo é a ação brutal de escrita e de (re)afirmação de (re)existência de sujeitos que são a todo o momento negados. Penso a pixação como uma forma de resistência, ou melhor, de re-existência. É uma configuração encontrada pelo sujeito para ele re-existir (um novo existir, com fôlego e com linhas de fuga, com criatividade). A lógica da propriedade é negada, a lógica do centro-periferia é questionada, a lógica do existir e aceitar a forma que foi relegado à sua existência é por esses pixadores posta à prova. Não é a pixação uma forma de resistência ao poder como pensam os marxistas e militantes da esquerda tradicional. Ela é uma micropolítica do cotidiano, uma fenda existencial, uma disputa decalcada na lógica das subjetivações. A pixação é uma ginástica política e ética”, defende Daniel Mittmann.

Um dos responsáveis por propor a micropolítica, o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) escreveu que, ao pichar, um sujeito diz “pertenço a ela (à cidade), a ela estou ligado por uma extremidade de meu corpo, uma mão ou um pé”. A pichação se faz, assim, no encontro do corpo com a cidade. Numa perspectiva, além de micro, biopolítica, o corpo é “(…) o ‘primeiro’ território de construção das relações e, portanto de dominação e controle dos indivíduos”, explica Mondardo.

GG, veterano da primeira geração da pichação em Belo Horizonte que segue na ativa, confirma esse caráter vital que pichar tem para um pichador. “Pixando, defendo um espaço que ninguém tira de mim. (…) Vou pixar até morrer”, afirma. Talvez por isso, apenas duas letras bastem em sua assinatura.

De baixo para cima

Um marco dos primórdios da pichação belo-horizontina – considerado um abuso para seus detratores, e um feito por praticantes e admiradores – foi pichar o relógio da sede da prefeitura, no centro da cidade, com os dizeres “nossa geração rebelde” acompanhando as assinaturas. Entre os pichadores, têm mais “ibope” aqueles que, além de “atacar” alvos emblemáticos, deixam marcas em maior quantidade pela cidade e nos lugares de difícil acesso, sobretudo os mais altos.

Pichação feita em 1995 no relógio da prefeitura dizia "nossa geração rebelde" // foto: Reprodução

Pichação feita em 1995 no relógio da prefeitura dizia “nossa geração rebelde” // foto: Reprodução

Outra especificidade da pichação, a verticalização “quebrou um cânone” estabelecido pelo graffiti norte-americano, segundo o estudante de artes visuais e artista urbano André Machado. “Ali [em Nova York] eram as composições do metrô, horizontais, que eram bombardeadas com as letras dos writters. Logo, o modelo para a composição dos grafites de todo o mundo era a horizontalidade, reafirmada pelos muros, que passaram a dividir com os trens o título de suporte preferencial. Com a pixação brasileira, pela primeira vez o suporte da arte urbana se verticaliza, acompanhando as linhas dos prédios escalados pelos pixadores, e esta novidade traz novos rumos a esta cultura”, comparou, em palestra no seminário Etnocídio, cultura e universidade, realizado em outubro de 2012 no Centro Cultural UFMG.

Em meio à intensa verticalização pela qual Belo Horizonte e outras cidades do país passam, arriscar-se para pichar o topo de arranha-céus é mais que uma aventura ou disputa pela inscrição mais alta – mesmo sem o domínio dos “alfabetos”, é possível ver ali uma crítica ao modelo de cidade em construção. “O mais engraçado é que na lógica do pixo, os burgueses que consomem cultura, arte e todo um ‘blá blá blá’ de produtos da indústria do entretenimento é que são os analfabetos. Afinal, eles saem de seus concertos, andam pela cidade em seus carros blindados e seguem para a suas casas-bunkers no subúrbio artificialmente arborizado e não entendem nada, uma letra sequer da pixação. Os pixadores querem arrenegar-se dessa apreciação de cidade-bunker”, comenta Mittmann.

Antípoda dessas fortalezas e território da pichação, a rua não escapa a uma transformação radical. A abertura de vias, o alargamento de avenidas e o aumento de viadutos no perímetro urbano, medidas que priorizam o trânsito de carros, são outros sintomas recentes do crescimento da capital mineira. Acompanhando essas enormes estruturas arquitetônicas e urbanísticas, a pichação também tem alcançado grandes dimensões. Um exemplo foram as assinaturas Cossi e Gago pichadas, lado a lado, em toda a extensão de um muro localizado em frente a um shopping na BR-356, na zona sul da cidade. “Com esse tipo de pixo, não precisa fazer vários pra que percebam, então poupa esforços”, justifica Gago.

A já apagada megapichação de Cossi e Gago no muro de contenção da BR 365 // foto: Ana Estrela

Os “alfabetos” usados nas pichações gigantes se aproximam do convencional e são conhecidos como grapixo por usarem recursos do grafite, como cores, sombras, contornos e efeitos, numa estratégia adotada para confundir a polícia, já que, segundo a Lei Federal de Crimes Ambientais (nº 9605/1998), a pichação é crime e o grafite, não. Um dos responsáveis por trazer o grapixo de São Paulo para Belo Horizonte, Gago afirma que os mineiros são mais preocupados com o desenvolvimento das letras. “Eu penso que aqui a pixação não é padrão, como no Rio e até mesmo em São Paulo. Aqui cada um faz o que imagina. A competição não é só entre ser o que tem mais ou o que faz mais alto. Comparamos letras, criatividade”, diz ele, que acaba de estrear um “alfabeto” inspirado em cifras musicais.

Terra de ninguém

Apesar de ocupar um muro de contenção em espaço público, a pichação gigante de Cossi e Gago, feita em 2011, foi apagada rapidamente. “Pena que apagaram. Pô, fiquei triste mesmo”, lamenta Gago. Mas ele sabe como é estar do outro lado de um muro pichado. “Eu nem reparava em pixação, sabe, até um moleque pixar o muro da casa da minha mãe, na Noroeste, perto do [bairro] Padre Eustáquio. Fiquei bolado. Aí foi que comecei a reparar na pixação e acabei achando interessante. Nisso, fui ao centro com meu pai certa vez e vi aquela do Cossi no Cine Brasil, achei demais. Tinha uns 14, 15 anos”, conta ele, que hoje tem 28 anos. A pichação que tanto impressionou Gago é considerada histórica em Belo Horizonte. “Quando o Cine Brasil era apenas uma ruína abandonada, logo acima de um outdoor empoeirado de Coca-Cola, alguém pichou ‘em cima de mim, só deus’. Logo Cossi conseguiu superar a altura do oponente e do refrigerante mais vendido”, relata João Perdigão, que, em um artigo publicado na edição de dezembro de 2012 do jornal O Cometa Itabirano, refaz a trajetória do pichador, preso desde junho passado. Fazendo um trocadilho com uma outra pichação feita por Cossi numa fachada na avenida Amazonas -“Prenda-me se for capaz” – Perdigão intitulou seu texto de Venda-me se for capaz, numa alusão ao fato de que as pichações em prédios, monumentos e outras edificações públicas em Belo Horizonte estariam à venda pelo município.

O ágil silenciamento destes registros, no entanto, está em consonância com a legislação belo-horizontina: a Lei 10.059, de 2010, dispõe sobre a “Política Municipal Antipichação”, que prevê a parceria da prefeitura com empresas para recuperação de espaços pichados em troca de publicidade. Tal política, uma das medidas da crescente privatização do espaço público, repete-se em outras cidades brasileiras. “Observamos um momento em que o capital, juntamente com as prefeituras, coloca em prática uma forma de regular os espaços públicos contra qualquer outra maneira de reprodução de resistência, de vozes alternativas que são grafadas na cidade. É claro que a mercantilização dos espaços é uma lógica hegemônica nas cidades. Temos que ver que o capital controla quem deve transmitir as mensagens, as ideias, que, obrigatoriamente, devem servir à lógica mercantil”, afirma o geógrafo Marcos Leandro Mondardo.

Apesar de também ser assediada por empresas interessadas em lucrar com sua estética, a pichação, para Mittmann, ainda consegue sustentar sua força de questionamento da ordem. “E friso, dentro dessa ordem, a sagrada propriedade (privada) e o espaço público (o qual é sempre entendido como espaço de ninguém e que, portanto, não deve ser usado)”.

Atendendo à demanda por um espaço público sem pichações, o mercado já oferece um verniz antipichação, que impede a aderência da tinta, permitindo sua remoção sem a necessidade de produtos químicos ou solventes. Em Belo Horizonte, o verniz já é utilizado em algumas edificações públicas, como nos novos viadutos, no Pirulito da Praça Sete e na Praça da Savassi. Na recém-reformada sede da Imprensa Oficial de Minas Gerais, o produto deu uma textura brilhante à fachada do prédio neoclássico do início do século XX, localizado na Avenida Augusto de Lima. “Antes da reforma, era uma das principais ‘agendas’ de pixação de Beagá, reunindo grande quantidade de assinaturas, algumas delas históricas”, lembra a estudante universitária Ana Estrela, que vem se dedicando à documentação da pichação belo-horizontina desde 2011. Fotos feitas por ela podem ser vistas no site Poesia da Rua.

A “agenda atropelada” pela aplicação de verniz antipichação na sede de um órgão de imprensa, tida como um bastião da liberdade de expressão, ilustra como “a democracia flerta com sua manutenção autoritária” quando se trata da pichação, ideia sobre a qual a filósofa Marcia Tiburi discorre no artigo Pensamento PiXação, publicado na edição de abril de 2010 da revista Cult. “Não é possível negar o direito ao muro branco ou liso em uma sociedade democrática, na qual está sempre em jogo a convivência das diferenças. O direito ao muro branco é efeito da democracia. Mas a questão é bem mais séria do que a sustentação de uma aparência ou de um padrão do gosto. A pixação é também um efeito da democracia, mas apenas no momento a ela inerente em que ela nega a si mesma. Ela é efeito do mutismo nascido no cerne da democracia e por ela negado ao fingir a inexistência de combates intestinos e velados. A pixação é, neste sentido, a assinatura compulsiva de um direito à cidade”.

"Presa" de GG , que "representa" a PE (Pixadores de Elite), no bairro Floresta // foto: Ana Estrela

“Presa” de GG , que “representa” a PE (Pixadores de Elite), no bairro Floresta // foto: Ana Estrela

Agenda do inacabado Hotel Beira Rio (Av. do Contorno com Rua Rio de Janeiro) extinta em 2012 pelas obras de um novo empreendimento hoteleiro // foto: Dastenras

Agenda do inacabado Hotel Beira Rio (Av. do Contorno com Rua Rio de Janeiro) extinta em 2012 pelas obras de um novo empreendimento hoteleiro // foto: Dastenras

 

 

 

Debora Rossi Debora Rossi (1 Posts)

Jornalista, especialista lato sensu em Artes Plásticas e Contemporaneidade (Escola Guignard/Universidade do Estado de Minas Gerais) e coeditora do e-zine Mixsórdia (www.facebook.com/mixsordia)


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