Navigation Menu+

Lusco-fusco

por

Foto: Bruno Paes

Foto: Bruno Paes

It is the moon that disappears

It is the stars that hide not I

It’s the City that vanished, I stay

With my forgotten shoes,

My invisible stocking

It is the call of a bell

“Guru”, de Allen Ginsberg

 

“É difícil caminhar por Belo Horizonte”. Amigas do Rio ficavam assustadas com os morros. BH é cheia de morros e pirambeiras. Mas elas não reclamavam de uma Matipó ou Mangabeiras. Era um leve declive entre Afonso Pena e Alfredo Balena.

É dessa forma que os motores roncam sem parar e mais alto. Vendo TV às duas da manhã, um ônibus rasga a noite, precisando de uma força extra. Esse ônibus montado em carroceria de caminhão, sem nenhuma gentileza ou graciosidade. A cidade dorme o dia inteiro, os motores roncam e, numa neblina, os transeuntes, em estado de vigília, seguem o lusco-fusco.

Domingo à tarde, há poucas pessoas nas ruas em quase toda a cidade. BH, que dormiu a semana inteira, acorda e a população vai dormir. É um ronco o que se escuta: um carro, uma moto, de vez em quando um ônibus. Os sonos de domingo são individuais. Estão trancados em concreto, finados em portas, sufocados em cobertores.

A cidade põe os outros para dormir quando acorda. De noite. Fins de semana. Há silêncio. Quem controla a cidade quer, quando a cidade acorda, que os outros adormeçam. As aulas de adestramento ocorrem no sono dos habitantes. E, enquanto a cidade não é totalmente domada, temos esse simulacro de títeres.

Não há nada – ou quase nada – verdadeiramente público por aqui. Nada – ou quase nada – que sorri igualmente a todos. Uma cidade simulada para que ninguém aceite andar por aí a não ser se for para deixar a cidade roncando.

Não são os morros, não é o estrangeiro. Não é dissimulação. O transporte não foi feito para locomover pessoas, é feito para enfeitar a marionete, para investir no adestramento. Os espaços abertos são o culto ao vazio, uma muralha da china que não mais protege – e que sempre serviu para encher um espaço vazio. Esvaziar e adestrar.

Enquanto a cidade dorme, porém, há crianças mal criadas. Que riem da roupa nova do Rei. Que roubam biscoitos à noite. Que, com uma lanterna debaixo do cobertor, leem memórias de uma moça bem comportada. É necessário ver o bailar das mariposas enquanto voam em direção à luz.

Foto: Bruno Paes

Foto: Bruno Paes

Pedro Kalil Auad Pedro Kalil Auad (1 Posts)

Pedro Kalil Auad é doutorando em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG. É também escritor de livros infantis, tendo lançado em 2012 “O Menino que Queria Virar Vento”, pela Editora Aletria (http://bit.ly/TLKGHm)


Pinterest

Fatal error: Uncaught Exception: 190: Error validating application. Application has been deleted. (190) thrown in /home/storage/e/a6/6c/revistamarimbondo/public_html/mais/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273