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Pop de rua, arte e ativismo

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(texto por Gustavo Bones, Fabiana Leite e Rita Boechat)

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite

As fotos presentes neste ensaio são fruto de um trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Arte e Ativismo do Espanca!, coordenado pelo ator Gustavo Bones. A partir de processos coletivos de investigação e experimentação, os Núcleos de Criação do Grupo Espanca! têm como proposta gerar trocas entre artistas, aprofundando sua relação com a cidade de Belo Horizonte. Afirma-se, assim, como um espaço para a criação coletiva, o encontro entre artistas e o intercâmbio de linguagens. Mais que uma arte “sobre” a realidade, as ações do Núcleo de Arte e Ativismo pretendem viabilizar a arte “com” a realidade a partir do contato entre um artista comprometido com seu tempo e uma realidade social. Buscam-se a criação artística como uma atitude inconformada com as injustiças sociais, econômicas e simbólicas e a ação ativista como uma resistência sensível e poética: a própria execução do objeto artístico como uma ação interessada na transformação do mundo.

Entre março e junho de 2011, o Núcleo de Criação Arte e Ativismo realizou diversas ações que colocaram em debate os acontecimentos políticos e cotidianos da cidade. O fechamento do Centro de Referência da População de Rua (CRPR) de Belo Horizonte, questão apresentada em uma das reuniões, inspirou não apenas este registro fotográfico, mas um trabalho intenso ao lado da população em situação de rua.

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite

 

O CRPR e a pop de rua

O CRPR de Belo Horizonte, fruto do Orçamento Participativo de 1995, é um equipamento público de acolhimento a pessoas adultas em situação de rua. Desde sua criação, o espaço tornou-se importante referência para a organização pessoal e coletiva, além de um suporte institucional para a construção do projeto de vida de cada sujeito. O programa, apesar de ser o principal mecanismo público de apoio à População de Rua da cidade e de ter sido considerado referência nacional em políticas públicas para este grupo, não era considerado prioridade para o governo. Ao longo dos anos, sofreu com seu sucateamento, o que culminou em ações de violência, como o recolhimento de cobertores e pertences de moradores de rua por fiscais da prefeitura. Por fim, em 19 de março de 2012, teve seus serviços integralmente suspensos sem qualquer anuncio prévio.

A População em Situação de Rua de Belo Horizonte é alvo constante de preconceito e intolerância, tanto por parte dos habitantes da cidade quanto do poder público. Segundo estimativa do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação de Rua (CNDDH) e Catadores de Material Reciclável, há cerca de duas mil pessoas morando nas ruas de Belo Horizonte. É uma população heterogênea, composta por pessoas com problemas de saúde, abandonadas pelas famílias, jovens imigrantes, desempregados, idosos, dependentes químicos, ex-presidiários, trabalhadores autônomos, etc. O mesmo estudo apontou Minas Gerais como o estado brasileiro com o maior número de assassinatos de moradores de rua registrados do país. Entre abril e agosto de 2012, 59 moradores de rua foram assassinados em Belo Horizonte. No segundo semestre do mesmo ano, a política urbana e social voltou-se para colocação de cercas, arames farpados e “pedras antimendigos” debaixo dos viadutos da cidade, com o intuito de tornar esses lugares inabitáveis.

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite

Cientes da urgência de novas políticas, o Fórum da População de Rua de Belo Horizonte e a Pastoral de Rua participaram do processo do Orçamento Participativo (O.P.) em 2012, no intuito de conquistar recursos para a construção de sede própria do Centro Pop, na região Centro-Sul, e de dois novos Centros nas regiões Leste e Norte. Foram as propostas mais votadas por sub-regiões no término do processo, com uma delegação de 44 representantes e 44 suplentes. A partir deste envolvimento com a população de rua e da necessidade de pautar uma política consistente para a mesma, Rita Boechat, do Núcleo Espanca!, tornou-se delegada para o O.P. e, juntamente com a delegação da população de rua, pôde participar ativamente das discussões em torno das políticas públicas direcionadas para este público.

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite


O nome disso é rua

Alguns dos artistas que compõe o Núcleo já haviam realizado um trabalho artístico com a população de rua através do “Paisagens Poéticas: o nome disse é Rua”, projeto que cria intervenções urbanas no horizonte da cidade desde 2010. Após o convívio com moradores de rua, engraxates, carroceiros e familiares de pessoas desaparecidas, o grupo de artistas criou ações que buscavam, poeticamente, uma reflexão acerca da cidade e das diversas maneiras de habitá-la. Ações cênico-performáticas foram executadas sem aviso prévio com o objetivo de sensibilizar o olhar dos passantes. Essas ações construíram uma relação de cumplicidade entre o grupo de artistas e muitos moradores que estão nas ruas, e esta relação serviu como importante ponte para as iniciativas do Núcleo de Arte e Ativismo.

A partir do fechamento do Centro de Referência, o Núcleo visitou o prédio do CRPR e conversou com a equipe que trabalha no espaço, buscando entender melhor o contexto em que ele se insere. Foram realizadas tardes de conversas e ensaios fotográficos com a população de rua na Praça da Estação e no Parque Municipal, além da mobilização de dois Pop-Niques – piqueniques com a População de Rua -, na Praia da Estação, e ampla divulgação das ações nas redes sociais com o objetivo de denunciar a postura arbitrária da Prefeitura com o fechamento do Centro de Referência. Fez-se coro às vozes que exigiam a imediata reabertura do espaço e a criação de espaços de convivência entre a Pop de Rua e outros agentes sociais. O Centro de Referência voltou a funcionar no mesmo local, porém com portas fechadas e limite de atendimento a cem pessoas por dia.

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite

Acreditamos que a cidade deve ser, antes de tudo, uma experiência. Uma experiência de descobertas, sensibilidades e encontros. E que a rua é onde essa experiência pode acontecer de forma mais verdadeira, porque é necessário estar aberto para o inusitado e o desconhecido. A rua é o espaço onde podemos ser coletivos, gregários, sensíveis a uma realidade social não restrita ao conforto das casas e dos espaços privados. Tentando amenizar o abandono, a violência e o preconceito sofridos diariamente, as ações realizadas pelo Núcleo de Criação em Arte e Ativismo, junto da Pop de Rua, criaram espaços de convivência e trocas simbólicas, encontros íntimos e conversas francas entre sujeitos criativos, sinceros e sensíveis.

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite

Quando tivemos a ideia de conversar e fazer fotos, sabíamos exatamente o que não queríamos: reproduzir as velhas e tradicionais imagens (pré)conceituosas das pessoas que vivem nas ruas. Chegamos timidamente com nossa câmera e fomos acolhidos com uma empatia reveladora de uma abertura imediata para tardes prazerosas de convívio e arte. Para fotografar, levamos adereços de carnaval, porque além de querermos produzir um ensaio lúdico, buscamos conectar nossa ação com o atual significado desse movimento artístico e cultural da cidade que se afirmou nos últimos anos como uma festa orgânica, natural e de iniciativa popular, mesmo sem qualquer regulamentação. Nos fantasiamos com a população de rua e com ela nos entregamos ao ensaio como moradores contemporâneos de uma mesma cidade. O clique é de Fabiana Leite, a composição, contudo, é coletiva.

Nos trabalhos que passamos a desenvolver, buscamos a referência de outras produções, mas pouco se fala da política elitista e excludente em voga na cidade. A fotografia ajuda a descortinar a escrita que, ao invés de buscar revelar uma “pessoa que existe” na sua individualidade e trajetória, inscreve-a num corpo sem história, numa máscara sem rosto. Uma lógica perversa que induz o olhar à cristalização do morador de rua como um signo – um signo-problema. Ao invés de situá-lo como um cidadão com direitos a serem garantidos através de políticas sociais inclusivas, ele é tido como um obstáculo a ser superado com ações excludentes e segregatórias.

Por isso, publicar este ensaio fotográfico realizado com a população de rua de Belo Horizonte é uma alegria. É um passo para a construção de caminhos novos e largos, no qual se promova um outro olhar sobre a cidade.

Foto: Fabiana Leite

Foto: Fabiana Leite

Fabiana Leite Fabiana Leite (1 Posts)

Fabiana Leite é advogada e artivista com produção em fotografia, literatura e cinema, Rita Boechat é cientista social e Gustavo Bones é ator e ativista; integrante do grupo espanca!; e membro do coletivo Paisagens Poéticas.


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