Navigation Menu+

Bendita

por

Mais marimbondo_Ziêmia

 

(texto de abertura por Carol Macedo)

No início dos anos 2000 nascia o Bendita, um zine que reunia depoimentos reais de violência contra mulheres, escritos de forma anônima em primeira pessoa. A edição 01 trazia na capa a frase “minha boca muda grita em tua orelha surda”. Segundo a publicação: “elas – nós – queriam mostrar o quão rotineiro são essas violências.  (…) Fomentar discussões e reflexões.”

Foi essa experiência que inspirou a autora Ziêmia a escrever um conto, que é publicado agora em 2013, pela primeira vez. O título escolhido para o texto – Bendita – faz uma homenagem ao zine.

A decisão da autora de transformar em literatura/criar uma narrativa própria é não somente um ato de coragem. Recontar as histórias é importante para o rompimento do que é silenciado, para o reconhecimento de que, sim, esses fatos ocorrem, mas, sobretudo, para que seja possível, não apenas para a envolvida no trauma, mas também para uma sociedade machista, sexista e doente reformular suas histórias. Para que, de alguma forma, elas sejam diferentes. Para que se tornem passado e não vislumbrem futuro. Uma forma de ressignificação da sociedade, não mais pelo o que ela é ou foi, mas pelo que quer (queremos) que ela seja. Porque recontar é também uma forma de utopia.

ps. Não mais existente em seu formato impresso, o Bendita hoje (re)existe como um site e disponibiliza todo o conteúdo publicado nas edições anteriores (para ler, clique aqui). O site continua aberto a receber depoimentos, nos mesmos moldes de quando o zine foi criado. O e-mail é benditazine@gmail.com

pps. Se alguém quiser contar seu relato diretamente à autora deste conto, o e-mail dela é ziemia.bendita@gmail.com

***

 

Bendita

What are little boys made of?

What are little boys made of?

Snips and snails and puppy dog tails;

That’s what little boys are made of.

What are little girls made of?
What are little girls made of?
Sugar and spice and everything nice;
That’s what little girls are made of.

29 de dezembro de 1989

Essa é minha primeira memória:

você me tomou pela mão. E eu nem sabia aonde ia, mas fui assim mesmo.

Você me tomou pela mão, e passamos por todos eles. Eles nem notaram. Eles bebiam, fumavam, comiam, tocavam violão e cantavam, jogavam baralho. Contavam piada. Nessa época, todo mundo era vivo.

Você me tomou pela mão. Eu fui. E ia chover, chover muito, aquela chuva grossa de fim de tarde de verão, o que eu não sabia, porque disso a gente só sabe quando contempla as coisas.

Você me tomou pela mão e subimos um andar. Passamos pelos cachorros. Você mataria um escorpião ali amanhã, e diria que era pra me salvar. Mas eu não sabia disso, e fui sem medo, porque era minha casa.

E eu já estava nos seus braços quando subimos mais um andar e abriu a porta e fechou a porta e a janela. E tava calor, e nós nos despimos. Você me despiu e disse que me amava, que a gente era namorado. E que a gente era namorado, e faria comigo uma coisa gostosa que só namorado faz. De costas.

Eu não queria, mas eu fui assim mesmo.

E ninguém nos ouviu, porque já chovia, e era aquela chuva grossa de fim de tarde de verão, o que eu soube, então, sem ter de contemplar.

*****

12 de junho de 1991

Mãe falou que hoje é dia dos namorados. Será que você vem no Natal?

 

*****

1 de dezembro de 1992

Hoje Mãe disse que eu não posso ficar sozinha com menino e que não posso deixar ninguém pegar em mim.

*****

25 de novembro de 1993

“Padre, peço vossa bênção, porque pequei. É a primeira vez que me confesso. Rogo a Deus misericórdia para fazer uma boa confissão.”

“Prossiga, filha.”

“Ontem briguei com meu irmão. Ele me irritou, eu bati nele. Ele é mais forte e me bateu mais, e fui xingar ele e acabei xingando minha mãe. Ela ouviu e me pôs de castigo, eu desobedeci e fugi.”

“Ah, minha filha, temos de honrar pai e mãe, você sabe. Você é uma menina boa, é só ficar calma e deixar o seu irmão brigar. Se você não brigar de volta, a história acaba. Quando um não quer, dois não brigam. Você se arrepende de algo mais?”

“Um dia eu quebrei uma taça da cristaleira, foi da minha bisavó. Mãe ia ficar brava, então eu joguei os cacos fora e não falei nada, mas eu fiquei arrependida, Padre.”

“Peça perdão a Deus e conte para sua mãe. Ela sabe que você é boa e se arrependeu. Deus já te perdoou, ela vai te perdoar.”

“Padre, tem só mais uma coisa. Mãe falou comigo que não podia deixar ninguém pegar em mim.”

“Ela está certa.”

“Mas isso aconteceu.”

“Você não pode desobedecer a sua mãe.”

“Mas ela ainda não tinha me falado isso. Ele me levou e a gente fechou a porta. Eu acho que eu não devia ter feito isso, padre, mas ele me levou, e eu fui e fiz, não queria.”

“Misericórdia, Senhor. Não pode mais brincar com esse menino. Criança não pode brincar de porta fechada.”

“Ele disse que era certo. Que ele é mais velho, que ele sabe mais do que eu.”

“O quão mais velho?”

“15 anos.”

“15 anos!… Você seduziu um homem…”

“Não, padre.”

“Aconteceu alguma coisa com suas regras?”

“Regras?”

“É, você já sangrou?”

“Uai, já. Quando machuco.”

“Não, você já virou mocinha?”

“Não, padre, ainda não.”

“Mas você seduziu um homem. Você se entregou para um homem sem o sagrado sacramento do matrimônio. Isso é adultério. Qual é o sexto mandamento da lei de Deus, menina?”

“Um: Amar a Deus sobre todas as coisas, Dois: Não tomar Seu santo nome em vão…”

“O sexto!”

“… Não pecar contra a castidade.’

“Você desobedeceu a esse mandamento, minha filha. Você não é mais virgem. Isso que você fez só se pode fazer depois do casamento. Mas homem não gosta de mulher usada. Nem vai poder casar-se com ele. Ele já é homem e te fez mulher. Não diga pro seu pai, ele não vai te deixar casar e você vai desonrar a família. Seja boa sempre e não fale disso. Arranjará um bom marido na hora certa. E respeite os mandamentos. Diga o ato de contrição.”

“Meu Deus, eu me arrependo de todo coração por Vos ter ofendido, porque sois tão bom e amável. Pesa-me, Senhor, de ter perdido o céu e merecido o inferno, e proponho firmemente, com a ajuda de Vossa graça, ser boa e nunca mais pecar. Espero alcançar o perdão de minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

“Reze 100 ave-marias e 100  pai-nossos. 25 credos e 25 salve-rainhas.”

 *****

7 de setembro de 1994

Fiquei menstruada. Mas eu não entendi, fiquei com vergonha, porque eu pensei que estava de piriri. Chamei Mãe, ela disse que estava certo, que o sangue, sangue mesmo, só vem depois. Ela falou com Vovó, que disse que de agora em diante eu tinha que me preparar pra casar. Ela foi até a cômoda da sala de televisão e separou uns novelos de linha. Disse que ia bordar uma colcha de crochet de casal e me dar. Disse que chegou a hora de começar a fazer enxoval para quando o marido chegar, porque agora eu sou mulher.

Fiquei com medo do Padre ter contado pra ela que eu já sou mulher.

Adúltera.

Fui pro quarto e guardei as bonecas na arca. É feriado, mas eu acho que não vou mais brincar. Mãe falou que eu sou boba por isso, mas acho que ela não sabe que eu já sou mulher.

Adúltera.

*****

1 de janeiro de 1995

Você não veio. Você não veio pro Natal, você não veio pro Ano Novo, você não veio. Agora que eu sou mulher, você não veio. Acho que você não vai casar comigo. Bem que o Padre disse que ninguém casa com mulher usada. Eu não vou mais casar com você. Eu não vou mais pensar em você.

*****

13 de abril de 1997

Mãos fortes agarraram Ana Terra no ar, e puseram-na de pé. A mulher abriu os olhos: cresceram para ela faces tostadas, barbudas, lavadas em suor.

- Mira que guapa!

Um dos homens apertou-lhe os seios. E depois Ana viu uma cara de beiços carnudos, com dentes grandes e amarelados – e esses beiços, que cheiravam a cachaça e sarro de cigarro, se colaram brutalmente aos seus um beijo que foi quase uma mordida. Ana cuspiu com nojo e os homens desataram a rir. Um suor gelado escorria-lhe pela testa, entrava-lhe nos olhos, fazendo-os arder e aumentando-lhe a confusão do que via: o pai e o irmão ensangüentados, caídos no chão, e aqueles bandidos que gritavam, entravam no rancho, quebravam móveis, arrastavam a arca,remexiam nas roupas, derrubavam a pontapés e golpes de facão as paredes que ainda estavam de pé. Mas não lhe deram tempo para olhar melhor. Começaram a sacudi-la e a perguntar:

- Donde está la plata?

La plata… la plata… la plata… Ana estava estonteada. Alguém lhe perguntava alguma coisa. Dois olhos sujos e riscados de sangue se aproximaram dos dela. Mãos lhe apertavam os braços. Donde está? Donde está? La plata, la plata… Ela sacudia a cabeça freneticamente, e a cabeça lhe doía, latejava, doía… La plata… la plata… Braços enlaçaram-lhe a cintura e Ana sentiu contra as costas, as nádegas, as coxas, o corpo duro dum homem; e lábios úmidos e mornos se lhe colaram na nuca, desceram em beijos chupados pelo cogote, ao mesmo tempo que mãos lhe rasgavam o vestido.

La plata… La plata… E Ana começou a andar à roda, de braço em braço, de homem em

homem, de boca em boca.

- Bamos, date prisa, hombre.

Tombaram-na, e mãos fortes que lhe faziam pressão nos ombros, nos pulsos, nos quadris e nos joelhos imobilizaram-na contra o solo. Ana começou a mover a cabeça dum lado para outro, com uma força e uma rapidez que a deixavam ainda mais estonteada.

- Capitán! Usted primero!

Ana sentiu que lhe erguiam o vestido. Abriu a boca e preparou-se para morder a primeira cara que se aproximasse da sua. Um homem caiu sobre ela. Num relâmpago Ana pensou em Pedro, um rechinar de cigarra atravessou-lhe a mente e entrou-lhe, agudo e sólido, pelas entranhas.

Ela soltou um grito, fez um esforço para se erguer mas não conseguiu. O homem resfolgava, o suor de seu rosto pingava no de Ana, que lhe cuspia nas faces, procurando ao mesmo tempo mordê-lo. (Por que Deus não me mata?) Veio outro homem. E outro. E outro. E ainda outro. Ana já não resistia mais. Tinha a impressão de que lhe metiam adagas no ventre. Por fim perdeu os sentidos.”

 

Hoje eu li Ana Terra e vi que você não me amava.

 

*****

2 de maio de 2000

Às vezes eu falo de você. Ou de mim. Eu falo de mim porque eu não te entendo. E eu não sei como mudar isso.

 

*****

11 de fevereiro de 2002

- Oi, Menina Linda.

- …

- Menina, oi, não tá me vendo ou você se esqueceu de mim?

- Como que eu haveria de te esquecer? Sai daqui.

 

- Você não vai me dizer nada?

- Eu nunca quis que meus monólogos tivessem um travessão. Sai daqui.

 

*****

12 de fevereiro de 2002

Eu não quero te esquecer. Eu tenho medo de te esquecer e de acabar me esquecendo de quem sou.

 

*****

08 de junho de 2003

Às vezes eu falo de você

Ou de mim.

Eu falo de mim, porque

eu não te entendo. E

eu não sei como mudar isso.

 

*****

04 de março de 2004

Às vezes eu falo

de você ou

            de mim

eu falo de mim

porque

eu não te entendo

e eu não sei como mudar isso

*****

12 de agosto de 2004

Hoje eu li esse diário e vi que em 1989 eu ainda não sabia escrever. Então eu finjo que em 1989 eu tinha 30 anos, e que eu tinha nascido com 30 anos, e que eu não tinha memória nenhuma da minha vida prévia, igual a um livro que li.

E você chegou, e me levou, e não me escondeu, e todos sabiam do que a gente estava fazendo. Eu era uma ninfômana, feito a filha do dono do porto, que se deita com todos. Mas eu era lúcida, e não me deitava; e metia porque queria meter. De quatro e no cu, porque no cu é mais vadia.

E ser vadia agora era minha escolha.

*****

08 de outubro de 2005

às vezes eu falo

de você

ou de mim

eu falo de mim

 porque

eu não te entendo

 e

eu

não

sei

como mudar isso

 

*****

30 de janeiro de 2006

Hoje Vovó morreu. Ela tinha se esquecido de tudo, menos de três poemas que aprendeu no primário.

Ela tinha se esquecido de mim, ela tinha se esquecido de você.

Me parece que existe alguma aleatoriedade na perda da memória. Ela te conheceu 15 anos antes de mim, mas ela te esqueceu primeiro. Talvez, no fundo, ela soubesse. Ou talvez ela só gostasse mais de mim, mesmo que dissesse que gostava de todos os netos igual.

Eu tenho medo de ter Alzheimer.

Eu tenho medo de minha última memória ser a sua.

 

Todos da nossa família vão morrer. E eu vou sofrer por todos, vou sofrer com cada morte, vou chorar cada lágrima dolorosamente.

Eu vou sentir alívio

porque você vai morrendo junto com eles.

*****

10 de julho de 2008

Hoje eu falei de você e resolvi parar de dizer que não me lembro. E nem que não entendo. E resolvi contar essa história como a minha história não oficial, a história da minha vida que nunca importou, que nunca ninguém quis ouvir. Do suplemento da minha vida.

Porque essa é a minha vida que sobra,

 e eu nunca soube o que fazer com ela.

Porque isso é uma vida inteira dentro da minha outra vida, a outra vida, a vida que é maior, a vida que todos conhecem.

 

Mas é essa vida inteira que me faz o que sou, que faz de toda minha vida,

digo, de minha outra vida,

o que ela é.

Ou o que eu quero que ela seja.

Porque eu não mudo o que você fez comigo,

Mas eu posso mudar toda a minha outra vida.

 

Às vezes eu acho que tenho uma máquina do tempo, desde o dia em que me tocou, e eu posso mudar toda a minha história – menos o que você fez comigo. Posso dizer que meu nome é Tereza. Mas que poderia ser Ana. Posso dizer que meu nome é Ana, mas que poderia ser Dôra. Posso dizer que meu nome é Dôra, mas poderia ser até mesmo Virgínia. E que eu tenho 40, 70, 5, 18 ou 120 anos. Porque essa história é minha, mas ela poderia ser um mito indígena, uma tragédia grega, um conto celta, uma rapsódia russa. Ela faz parte da literatura universal. Mas, de praxe, ela é a história que corre em segredo, o segundo plano do relato que nunca é revelado. E essa história agora também é uma bolha de sabão que se desprende do meu pito de gesso.

Você me matou no dia em que me tocou.

Eu nasci no dia em que me tocou. Mas eu nasci com duas vidas.

 

*****

Ziêmia Ziêmia (1 Posts)

Ziêmia tem 29 anos, mas poderia ter mais ou menos. Ela faz muitas coisas da vida, uma delas é a escrita deste relato – sempre em andamento – desde o dia em que nasceu pela segunda vez, há 24 anos. Ziêmia dedica este conto a todas as Benditas que já leu, às que ainda lerá e a todas as Benditas que nunca se revelarão. E espera que um dia se rompam, em definitivo, todos os silêncios malditos.


Pinterest

Fatal error: Uncaught Exception: 190: Error validating application. Application has been deleted. (190) thrown in /home/storage/e/a6/6c/revistamarimbondo/public_html/mais/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273