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Compartilhar é preciso

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Experiência propõe uso de equipamento cultural público e utiliza internet para ampliar o acesso a produções cinematográficas  

Acreditamos que o público amante do cinema de Belo Horizonte está carente. É certo que algumas mostras admiráveis ocorrem por esforços de voluntários na cidade – notadamente o Forumdoc.bh e a Indie são eventos quase obrigatórios no calendário dos cinéfilos belorizontinos. Entretanto, trata-se de eventos pontuais, exibições de um número exaustivo de filmes em um curto espaço do tempo, o que faz com que as salas fiquem superlotadas e os espectadores cansados. Fora destes momentos de festim cinematográfico, poucos são os locais de exibição de filmes “alternativos” ou “experimentais” – leia-se: tudo aquilo que não é blockbuster, aquilo que não é produzido para a comercialização maciça. Poucos são os locais e poucas são oportunidades durante o ano de se assistir filmes diferentes, instigantes, inquietantes.

O texto acima é parte de uma carta escrita por um grupo de estudantes em março de 2005. Infelizmente, as reflexões que ela trazia ainda não se tornaram completamente anacrônicas. Apesar de terem surgido importantes espaços e mostras de cinema na capital mineira, o Cine Humberto Mauro foi o único a abrigar uma programação de forma contínua nestes oito anos que se seguiram.

Um dos que assinou o documento, à época entregue ao Centro de Cultura Belo Horizonte (CCBH), foi Theo Duarte, hoje doutorando em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA/USP. “Apesar de existirem eventos pontuais na cidade, sentíamos que havia uma carência de um circuito não comercial, e até mesmo do comercial. Existia toda uma história do cinema que a gente queria conhecer, mas não tinha acesso, seja em VHS/DVD ou em tela de cinema”, diz ele.

Juntamente com os amigos Rogério Brittes, Ruth Beirigo e Pedro Kalil, eles viram na internet uma forma de viabilizar o acesso a filmes “diferentes, instigantes, inquietantes” exibidos de forma gratuita e permanente para a população de Belo Horizonte. À época, programas de P2P (peer to peer) já permitiam o compartilhamento de livros, músicas ou filmes. O formato Xvid havia reduzido drasticamente o tamanho dos arquivos de vídeo, permitindo uma dispersão mais rápida de filmes digitalizados. Com a “novidade” do acesso direto a produções cinematográficas do mundo todo, eles vislumbraram a possibilidade de criar um cineclube, que exibisse mostras permanentes e temáticas e permitisse discussões.

Mas ainda era necessário “criar” um espaço de exibição. Ao entender que os espaços culturais da cidade devem ser compartilhados, com programação feita para as pessoas e, por que não?, com as pessoas, o grupo foi em busca de um equipamento público para estabelecer um possível diálogo. “Era uma vontade não só de que a gente os visse, mas que outras pessoas também pudessem conhecer. Fora que era um ótimo motivo para encontrar os amigos numa sexta-feira à noite”, afirma.

Solicitaram uma reunião com o então diretor do CCBH, Luiz Carlos Garrocho, que se comportou da forma que se espera de um representante de uma instituição pública: disposto a ouvir as demandas da população. “Fomos bem recebidos. Especialmente o Garrocho foi bastante receptivo à ideia e se mostrou aberto a encontrarmos juntos as condições em que o projeto poderia ser realizado”, conta Theo. Em reunião, decidiu-se que o CCBH disponibilizaria suas instalações físicas – que incluía uma sala de 30 lugares e um projetor –, além de divulgação no mailing da prefeitura e impressão de folhetos em P&B com a programação semanal. Os quatro amigos ficariam responsáveis por produzir os folhetos e cuidar dos filmes, um trabalho à época bastante moroso e que viria a ser dividido entre todos os integrantes [logo no início, outro amigo – Bruno Paes – juntou-se ao grupo. Posteriormente, Claudio Silvano, Kirlian Siquara, Affonso Uchôa e Maurício Rezende também se tornaram colaboradores]. Ali nascia o Cineclube Subterrâneos, iniciativa que iria durar entre 2005 e 2009, com breves interrupções.

Criação: Pedro Coutinho

Criação: Pedro Coutinho

Mas o ano de seu surgimento era 2005. À época, dos 5.600 municípios existentes no país, apenas 1.606 possuíam acesso à internet banda larga. Mas o serviço a que seus quatro milhões de assinantes tinham era bem diferente do que se conhece hoje como conexão de alta velocidade. Uma internet a cabo – de conexão permanente – permitia troca de dados a cerca de 70 Kbp/s, velocidade mais de dez vezes inferior a um plano básico oferecido hoje (1MB). Um filme chegava a demorar uma semana para concluir seu download.

"Trash",  dePaul Morrissey

“Trash”, dePaul Morrissey

Os desafios iam muito além da “baixa” velocidade de conexão. “Era necessário encontrar quem tivesse e compartilhasse os filmes. Depois de assisti-los, fazíamos a tradução das legendas e assistíamos novamente para checar se ela estava correta. Houve casos em que não encontramos em nenhuma língua, como o “Cowards Bend the Knee”, do Guy Maddin, e o “Trash”, do Paul Morrissey, e fizemos a legendagem do zero. Também acontecia de, depois de esperar dias, descobrirmos que o filme era diferente do que estava no nome do arquivo”, explica Theo.

No lugar dos amigos, quem apareceu no dia da abertura e nos meses seguintes foi o público já frequentador do Centro e do próprio CCBH. No terceiro mês, a sala ficou pequena e o Subterrâneos foi transferido para uma com capacidade de 100 lugares. Toda sexta-feira, às 19h, entre os meses de maio de 2005 a outubro de 2007, cerca de 70 pessoas frequentaram o cineclube naquele endereço. “Foi se formando um público bem diverso, jovens e aposentados, gente que sabia do trabalho, que planejava ir depois ao [edifício] Maletta, que estava de passagem ou mesmo amantes do cinema que iam porque queriam ver aqueles filmes”, conta. “Mas não tínhamos nenhuma pretensão de formar público. No fim, acredito que isso se deu, mas para o Subterrâneos mesmo, um público voltado à algo que ainda não se conhece, e não necessariamente público de cinema. A experiência do cineclube ajudou a entender que ter algo semanal e com mostras de interesse é algo importantíssimo. As pessoas podem não saber o que vai passar na semana seguinte, mas lá vão conferir”, avalia Theo, que após o encerramento das atividades do Subterrâneos viria a ser por quase dois anos programador do Cine Humberto Mauro.

"Onibaba", de Kaneto Shindo

“Onibaba”, de Kaneto Shindo

Sendo mostras específicas ou não, antes de cada exibição os filmes eram apresentados e contextualizados. Aos poucos, junto com o público a programação começou também a se consolidar. “Apesar de ser um processo meio anárquico, dava muito certo. Alguém do grupo assistia a um filme e sugeria aos demais, a gente somava as ideias e chegávamos a um consenso. Na Nouvelle Vague japonesa, por exemplo, fizemos uma espécie de prospecção, assistimos a vários para fazer uma curadoria”, diz.

Millennium Mambo,  de Hou-Hsiao Hsien

Millennium Mambo, de Hou-Hsiao Hsien

Entre os mais de 200 filmes, alguns foram exibidos pela primeira vez na cidade em uma tela grande, como o “Trouble Every Day”, da Claire Denis, o “Mal dos Trópicos”, do Apichatpong Weerasethakul e o “Millenium Mambo”, do Hou-Hsiao Hsien. Se não inéditos, filmes de cineastas como Béla Tarr e Keneeth Anger também alcançaram um público maior a partir da iniciativa. Além de promover a exibição dos filmes, o grupo – que assinava como 23:58, “devolvia” os filmes a mais sites de compartilhamento e disponibilizava as legendas para sites nesta natureza que começavam a surgir e a se multiplicar. “Essa prática era bem menos comum, mas ali começou a se firmar esta história de disponibilizar gratuitamente as legendas. À época, colocávamos numa comunidade do Orkut; tínhamos a esperança de que outras pessoas fizessem isso também, que se tornaria um espaço de troca”, afirma.

"Trouble Every Day", de Claire Denis

“Trouble Every Day”, de Claire Denis

O desejo de compartilhar os filmes – de forma gratuita – sofreu apenas uma interdição. “Um festival, quando soube que exibiríamos um mesmo filme anunciado na programação deles, entrou em contato e pediu que não o fizéssemos. Acatamos o pedido e o substituímos por outro. Já quando calhou de exibirmos a trilogia do João Cesar Monteiro um mês antes de uma mostra do Cine Humberto Mauro, eles não reclamaram. Disseram que entendiam que era algo complementar”, conta Theo.

Esse entendimento de que compartilhar é preciso ultrapassou os limites da cidade. Em 2006, o curitibano Paulo Scarpa, também integrante do 23:58, decidiu replicar a experiência do Subterrâneos na capital paranaense. Com a anuência da Universidade Federal do Paraná, todas as sextas-feiras filmes raros e/ou que não tivessem sido lançados em VHS ou DVD passaram a ser exibidos numa das salas da Reitoria da universidade, também de forma gratuita. Segundo Paulo, a sala com capacidade para até 120 pessoas ficava sempre cheia e chegava a ter sessões com pessoas sentadas no chão, como na exibição de “Trash”, do Paul Morrissey. A cada mês, havia uma temática diferente – cuja curadoria era assumida por ele – e amigos produziam os pôsteres de divulgação. “A experiência foi importante e deu mega certo. Até recentemente, ainda recebia e-mails de pessoas perguntando se o cineclube ia voltar”, diz Paulo. O Subterrâneos curitibano existiu por cerca de um ano.

 junho

Hiato

No final de 2007, o CCBH fechou para reformas. Cerca de um ano depois, quando elas foram concluídas, o Cineclube foi informado de que a proposta do espaço havia mudado, além de a equipe anterior ter sido substituída. Com exceção de Theo, todos os demais integrantes já haviam se desligado do cineclube para se dedicar à pesquisa acadêmica ou por terem mudado de cidade. No ano seguinte, porém, o Subterrâneos encontrou espaço na sede da Associação Filmes de Quintal e lá continuou suas atividades, mantendo a mesma proposta até dezembro de 2009, quando realizou sua última exibição. “Houve algumas mostras e filmes, mas acho que começou a perder a função nos moldes em que era feito. Muitos dos filmes já haviam sido relançados em DVD e o acesso a eles era incrivelmente mais fácil. A proposta de compartilha-los acabou se tornando menos desafiadora”, avalia Theo.

Segundo ele, a experiência de um cineclube que se apropriou da internet, servindo ao mesmo tempo de estímulo e ferramenta, não teria a mesma potência de antes. “Com os Subterrâneos aprendemos a fazer programação com o que se tem e tivemos uma vivência oposta a de que filme instigante é para poucos. Mas ele foi importante naquela época, quando o acesso a aqueles filmes era mais difícil. Hoje, se ele se repetisse, não veria mais o porquê manter o nome. O desafio hoje é encontrar um formato que faça sentido”.

Confira aqui a programação completa exibida em Belo Horizonte, entre 2005 e 2009.

 

Criação: Pedro Coutinho

Criação: Pedro Coutinho

 

Carol Macedo Carol Macedo (5 Posts)

Jornalista, editora da revista Marimbondo e do site Mais Marimbondo, e sócia-fundadora da Canal C | Comunicação e Cultura.


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