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Belo Horizonte – Outras formas de leitura

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Em entrevista a Mais Marimbondo, o pesquisador Marcelino Rodrigues discute as relações entre tradição e modernidade e faz um convite ao exercício de outras interpretações possíveis

Obras para instalação de filtros no Reservatório do Cercadinho, atual sede da Copasa na Rua Carangola (fonte: APM)

Obras para instalação de filtros no Reservatório do Cercadinho, atual sede da Copasa na Rua Carangola (fonte: APM)

Construída na virada do século XIX para o XX, Belo Horizonte parece – ainda hoje – ter a crença na modernidade como um valor em si. Uma “herança” facilmente reconhecida na arquitetura, nas artes, nos modos de viver e pensar (e de se afirmar). Foi a partir dessa percepção – nem tão pessoal, arrisco dizer – que surgiu o desejo de entender como se deu a construção desse entendimento e suas durações. Para discutir o assunto, Mais Marimbondo convidou o Pós-doutor em Estudos Culturais (PACC/UFRJ), Marcelino Rodrigues, que, além de professor da Faculdade de Letras da UFMG, é também pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Arte e vice-diretor do Centro de Estudos Literários e Culturais – Acervos de Escritores Mineiros, ambos da mesma instituição.

Que entendimento de modernidade se revela na Belo Horizonte nos seus primórdios, no momento em que era concebida como cidade?

Como sabemos, Belo Horizonte foi construída quase do zero, no final do século XIX, para ser a nova capital mineira, substituindo a acanhada e tradicional Ouro Preto. Foi uma cidade planejada segundo as ideias que predominavam naquela época, daí seu traçado geométrico e regular. O projeto seguia a linha da reforma de Paris, por Haussmann, em meados do XIX, e do centro do Rio de Janeiro, pelo prefeito Pereira Passos, no início do XX: racionalidade, cientificismo positivista, higienismo, arquitetura eclética e a construção de uma cenografia moderna e republicana, com ênfase na criação do espaço público. Ao mesmo tempo, a cidade estava no coração da tradicional Minas Gerais e recebeu uma população provinciana, predominantemente formada pela burocracia da antiga capital e por trabalhadores vindos do interior mineiro. Essa contradição e os esforços para superá-la ou conciliá-la marcaram e ainda marcam a cultura, a memória e o imaginário social construído em torno da cidade.


Nesse sentido, como a arte produzida em Belo Horizonte, assim como seus espaços culturais – cinema, teatros, bibliotecas, cafés – contribuíram para essa concepção?

No início da história da cidade, o cinema, o café e o teatro, bem como a praça, os locais para a prática de esportes e a própria rua compunham esse cenário pretensamente moderno, com ênfase na vida pública. No entanto, a população hesitou em ocupá-lo e, por algum tempo, BH foi considerada “a cidade do tédio”, conforme a fórmula criada por Carlos Drummond de Andrade. Com o tempo e o crescimento da cidade, essa situação foi mudando e Belo Horizonte acabou incorporando, de uma forma bem particular, aquela imagem de modernidade que foi sonhada pelos seus projetistas. A começar pelo próprio Modernismo, especialmente na literatura, com a turma formada por Drummond, Emílio Moura, Martins de Almeida etc., que criaram a Revista – um dos periódicos mais importantes do movimento modernista –, e mantinham suas divisões em guarda nas redações dor jornais e revistas, especialmente o Diário de Minas, curiosamente um órgão do Partido Republicano. Nas artes plásticas, o movimento modernista viveu seus momentos heroicos com a exposição de Zina Aita, em 1920, e o Salão do Bar Brasil, primeira coletiva de arte moderna realizada na cidade, onde figuravam nomes como Monsã, Delpino Júnior, Jeanne Milde, Fernando Pieruccetti etc. Os bares e cafés da cidade, como o Bar do Ponto, o Trianon e o Café Estrela, foram o cenário principal dessa vida artística e intelectual, antecipando o título de “Capital dos Botecos”, que a cidade ganharia mais tarde. Um livro muito bacana sobre essa cena, cuja leitura eu super recomendo, é O desatino da rapaziada, do Humberto Werneck. Mas esse clima de modernidade sempre conviveu com um certo provincianismo, herdeiro daquela contradição inicial que apontei. Talvez por isso, pela presença forte da tradição, o Modernismo literário mineiro foi considerado meio desviante, ambíguo e cético em relação ao movimento mais entusiasta e barulhento de São Paulo. De certa forma, isso foi interessante, criou uma atitude reflexiva e crítica que, de certa forma, ainda repercute no cenário cultural da cidade.

Charge de Mangabeira (pseudônimo de Fernando Pieruccetti)

Charge de Mangabeira (pseudônimo de Fernando Pieruccetti)


É possível afirmar que esses aspectos se modificaram ao longo do tempo? Se sim, o que mudou e o que permaneceu nas transformações que a cidade sofreu durante os seus pouco mais de 100 anos?

Sim e não, claro! Tudo mudou um pouco ao longo desse século, mas muita coisa também permaneceu. Uma delas foi essa atitude de que falei e que ainda está presente em muita coisa que se faz na cidade. A contradição/conciliação entre modernidade e tradição, também, é uma marca muito forte, que está presente na música, na arquitetura, na literatura de Cyro dos Anjos, Murilo Rubião, Wander Piroli… Dou dois exemplos que conheço um pouco. O primeiro é o futebol, que tem sido meu objeto de pesquisa desde o mestrado, na Faculdade de Letras da UFMG. Nosso imaginário e nossa cultura esportiva estão impregnados dela. Como a rivalidade entre Atlético e Cruzeiro, que se construiu com base na oposição entre duas formas de ser popular: a astúcia e o trabalho do Cruzeiro, herdeiro da experiência dos imigrantes italianos; a raça e a paixão do Atlético, clube que começou na elite, mas que se popularizou, conciliando e harmonizando conflitos e diferenças. As charges de Fernando Pieruccetti, que inventou os mascotes dos clubes (Galo, Raposa, Coelho etc.) usando o pseudônimo Mangabeira, com sua recriação do universo do futebol em histórias com tom de fábula, que se passam no ambiente campestre e rural, também fazem essa mediação entre tradição e modernidade. O outro exemplo vem de minha experiência com a música e com a produção cultural. Primeiro como músico e depois como sócio do bar A Obra, por muitos e muitos anos pude sentir na pele a dificuldade que é fazer as coisas acontecerem em BH, como o público é reticente e difícil de conquistar. Mas não por provincianismo, mas por ser bem informado e muito crítico; ávido por novidades, mas que não adere facilmente a qualquer coisa. Por outro lado, sabe reconhecer o que é bom e tem consistência. Prova disso é a longa vida d’A Obra, que ajudou a divulgar um número enorme de bandas e DJs e a formar um público antenado com as novidades musicais, mas que, ao mesmo tempo, é eclético e sabe dar valor a coisas bacanas que aconteceram no passado, como a tradição do rock e da música brasileira.

É possível pensar na cidade de Belo Horizonte como um arquivo ou museu da modernidade?

Sim. Como toda grande cidade, Belo Horizonte é uma grande teia de textos, imagens, caminhos e sons que nos trazem os traços, ruínas e recados do passado e, ao mesmo tempo, dialogam com o presente e o futuro. Com seus altos e seus baixos, seus lugares de encontro e mediação, bairros tradicionais e boêmios, esquinas, bares, cinemas, museus, teatros, clubes e campos de futebol… A tradição e a modernidade estão aí, inclusive a própria modernidade como tradição, como imagem herdada e cultivada da cidade e da comunidade. Como mostraram [os filósofos franceses Michel] Foucault e [Jacques] Derrida, um arquivo não é só um depósito de registros do passado, mas também a lei que determina o que é visível, dizível e arquivável. Nesse sentido, pode-se dizer que o discurso sobre nossa cidade e sua história incorporou de tal forma a contradição entre tradição e modernidade que acabou ofuscando outras possibilidades de leitura, arquivamento e interpretação. Um exercício interessante que se pode fazer, então, é o de desorganizar o arquivo, encontrar outras formas de lê-lo, tensionando a lei do arquivamento.


Belo Horizonte também seria um arquivo que não só vislumbra o passado, mas também o futuro? Nessa perspectiva histórica, qual é a narrativa que a cidade construiu, constrói e que você acha que poderá criar daqui em diante?

Todo arquivo é, de certa forma, um recado para o futuro, assim como todo documento é um monumento, uma tentativa de projetar para o futuro uma imagem do presente e do passado. A comunidade de Belo Horizonte construiu sua narrativa e sua memória em torno da contradição entre tradição e modernidade e essa narrativa, até hoje, tem sustentado os projetos e os discursos sobre a cidade. Em tempos de crítica aos projetos de modernização em que estivemos engajados, ao longo do último século, talvez seja o tempo de repensar até onde pode levar o nosso sonho de modernidade. Como morador da cidade, que tem que atravessá-la diversas vezes por semana para trabalhar na Pampulha, tenho pensado muito na questão do crescimento e do planejamento urbano. A experiência de enfrentar o trânsito todos os dias faz lembrar a ideia do choque, que [o filósofo alemão] Walter Benjamin reconheceu em [no poeta francês Charles] Baudelaire como um signo da impossibilidade da experiência na modernidade. É um sofrimento que nenhum ar condicionado, rádio ou mp3 player pode mitigar. Enquanto isso, mais e mais edifícios são construídos, mais e mais automóveis são lançados às ruas, mais e mais viadutos são construídos. Não é difícil entender, então, a melancolia e o saudosismo daqueles que viveram uma Belo Horizonte mais pacata, uma “Cidade Jardim” onde se podia voltar caminhando pra casa após uma noite com os amigos num bar. Está aí um recado do passado que merece a nossa atenção!

Obelisco da Praça Sete (fonte: APM)

Obelisco da Praça Sete (fonte: APM)

Carol Macedo Carol Macedo (5 Posts)

Jornalista, editora da revista Marimbondo e do site Mais Marimbondo, e sócia-fundadora da Canal C | Comunicação e Cultura.


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