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Folia no Rio

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Mais Marimbondo visita projeto realizado em Rio Manso, também contemplado por edital da Funarte

Foto: Aldo Alighieri

Foto: Aldo Alighieri

Rio Manso, município de cerca de 5 mil habitantes, fica há 63 quilômetros de Belo Horizonte e o caminho é a BR 381 e a MG 831. Ao entrar nesta, o viajante finalmente sente os ares bucólicos do interior mineiro. “Rio Manso é mais pra frente, moça. Cês vão seguindo”. Da estrada sinuosa é possível avistar o rio que dá nome à cidade e, “seguindo mais pra frente”, chega-se à praça da Igreja Matriz. Neste local, um senhor de cerca de 80 anos, que apresentou-se como primo de terceiro grau da atual prefeita, foi quem indicou como chegávamos ao CRAS, Centro de Referência da Assistência Social, espaço onde são realizadas as oficinas do projeto Folia no Rio.

O projeto foi um dos contemplados no edital de Microprojetos da Bacia do Rio São Francisco, da Fundação Nacional das Artes (Funarte), o mesmo que possibilitou a criação deste blog, e surgiu do desejo da psicóloga Clarissa Valadares e do produtor cultural Elias Gibran em valorizar a – profundamente ameaçada – tradição das Folias de Reis da região. Durante dois meses, de dezembro a janeiro, Clarissa e a professora de música Ana Patrícia Rocha entraram em contato com antigos mestres e foliões para registro das composições que, agora, começarão a ser ensinadas aos mais jovens. “Tem muita música na região, feita aqui mesmo, algumas já perdidas”, diz Ana Patrícia. A professora revela que quando contou do projeto para os foliões, eles o receberam com desconfiança. “Disseram que isso não ia acontecer, que os mais jovens não estavam interessados. Eu disse que ia sim, mas pensava ‘e se não acontece mesmo?’”, revela ela. Mas aconteceu.

Foto: Aldo Alighieri

Foto: Aldo Alighieri

Inicialmente com previsão de abrigar uma turma de quinze pessoas, Folia no Rio teve que abrir sete turmas, devido à enorme procura. Tal ampliação foi possível devido ao apoio da gestão municipal, que incorporou o projeto às suas ações e contratou a professora de música. A maioria dos participantes são jovens e crianças, a partir de nove anos, mas tem até adultos. As aulas são realizadas sempre às sexta-feiras, das 9h às 18h, e existe uma lista de espera.

A relação de quem está fazendo as oficinas com a tradição das folias da região ainda é incipiente. Ana Patrícia explica que primeiro buscou ensinar os princípios dos instrumentos de corda para nivelar as turmas e que, agora, começará o ensino das músicas das folias propriamente ditas. Aos poucos, instrumentos percussivos também são incorporados. “Quando o tambor chegou, todo mundo queria ir para o tambor”, explica a professora. Em breve, será realizado um encontro entre os foliões e os participantes das oficinas.

Conversa

A notícia de que uma jornalista iria até lá fazer entrevistas e tirar fotos criou alvoroço. Mesmo assim, precisou-se de um tempo para que a timidez ficasse de lado e as frases ensaiadas fossem esquecidas. Com poucas horas de conversa foi possível entender que a maior parte da vida cultural da cidade, seja por meio dos cursos oferecidos, seja pelas festas religiosas, gira em torno das igrejas. Sem querer ignorar o papel social exercido por essas instituições, principalmente nas pequenas comunidades e na periferia dos grandes centros, o projeto ganhou para nós, a partir dai, um contorno mais especial por não estar subordinado a uma organização religiosa e a seus princípios, por vezes tão limitantes.

Foto: Aldo Alighieri

Foto: Aldo Alighieri

Na turma que visitamos, os motivos para os participantes – entre 10 e 15 anos – estarem ali são diversos e, como o contato com a folia ainda não começou efetivamente nas oficinas, conhecer as tradições de seus antepassados não estão entre eles. Uma certa decepção foi atenuada com a constatação de que a música funciona ali como instrumento de descoberta, convivência, celebração e sonhos.

Victória Carolina quer ser atriz, Gabriela Gonçalves, sua melhor amiga, cantora. Bárbara Furbino e Pedro Henrique da Silva sempre quiseram aprender violão e, recentemente, ele descobriu que o pai foi palhaço em um grupo de folia. Ana Clara Ferreira acha bonito mulher tocando o instrumento e sua irmã Lilia, quer ser baterista, ter uma banda de rock e, ela que não gostava muito de violão, agora ama, assim como Isabela Pereira, que também quer aprender guitarra. Já Jaqueline Campos vem de uma família musical.

Foto: Aldo Alighieri

Foto: Aldo Alighieri

Ameaça

A Folia de Reis, que já foi uma manifestação forte na região de Rio Manso, agora está ciscunscrita a pequenos grupos que se reúnem esporadicamente e, com o passar dos anos, corre o risco de acabar. Esta é a conclusão que os idelizadoras do projeto Folia no Rio chegaram e que motivou a inscrição do mesmo no edital. “Atendi pessoas mais velhas que sentiam falta da folia,  que a viam como algo que dava sentido para à vida. A folia também tem um sentido coletivo, de encontro, o que é mais importante no meio rural, onde as pessoas tendem a viver mais isoladas”, conta Clarissa.

Modernidade, falta de interesse dos mais jovens, inabilidade dos mais velhos em ensinar e até a internet foram apontados por Clarissa, Ana Patrícia e pelos jovens com quem conversamos como possíveis razões para a decadência dos grupos de folia. A onda de mudanças de moradores antigos que venderam seus sítios para as mineradoras também foi levantada como uma suposição (a recente descoberta de recursos mineirais na região e sua consequente exploração por grandes mineradoras vem mudando a cara e as relações econômicas e sociais em Rio Manso e cidades vizinhas).

Agora, Folia no Rio surge como uma possibilidade de vivência ou, ao menos, de debate sobre essa questão. Ficamos impressionados com o poder de multiplicação dos 11 mil e 631 reais recebidos e acreditando que o projeto é um exemplo de como os fundos e prêmios  permitem que o poder público, apoiado pelos agentes culturais, assuma espaços que lhe cabem, prescindindo da relação promíscua com a iniciativa privada. Saímos de Rio Manso com a vontade de que Folia no Rio cresça, dê frutos e saia fortalecido do momento em que mostrar sua faceta de religiosidade e resistência negra.

 

Julia Moyses Julia Moyses (6 Posts)

Jornalista e gestora cultural. É editora da Revista Marimbondo e do blog Mais Marimbondo, e sócia da Canal C - Comunicação e Cultura


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