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A dor da gente não sai no jornal

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Na última segunda-feira, dia 3 de junho, caía uma chuva fina no Cemitério da Paz quando, às 17h, foi enterrado Marcílio Luiz Moreira, o Leca, aos 63 anos. Em volta do caixão, a Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário Sagrado Coração de Jesus, ou Irmandade Os Carolinos, tocava e cantava em uma última homenagem a seu presidente. “Falem para os meninos continuarem. Não deixem o Moçambique do meu pai morrer”, foi o que disseram ter ouvido dele no hospital, enquanto lutava contra as consequências de um devastador câncer nos ossos que, entre outras coisas, impediu o mestre de obras de terminar o refeitório da sede da guarda, localizada no bairro Aparecida, região noroeste de Belo Horizonte.

Os Carolinos em Aparecida do Norte. foto / / Netun Lima

Os Carolinos em Aparecida do Norte. foto / / Netun Lima

Quem teve a oportunidade de conhecer Leca de perto reconhecia nele um líder sereno, carismático e firme, que mantinha estreito diálogo com os integrantes da irmandade, incluindo os mais jovens, aos quais dispensava brincadeiras, conselhos e “puxões-de-orelha”. A guarda que ele comandava é uma das mais tradicionais da cidade, datando de 1917 o seu primeiro registro em cartório. Ela foi fundada por Francisco Carolino – daí a origem do nome – de quem Leca era neto e herdeiro legítimo. “Ele era o herdeiro maior desse trono, o esteio desse grupo”, diz o cantor e compositor Maurício Tizumba, que também foi presidente e capitão da Irmandade Os Carolinos. “Perdemos o chão da gente”, enfatiza a integrante da Irmandade e também sobrinha do Leca, Neusa de Assis.

A perda de um capitão da envergadura de Marcílio Luiz Moreira é sentida não apenas em sua guarda. É o que conta Seu Antônio Ciriaco, da Irmandade Nossa Senhora do Rosário Os Ciriacos: “como irmão do rosário, Leca vai fazer muita falta não apenas para a irmandade dele, mas para todos nós. A gente fica muito triste com esse esvaziamento, pois ele era uma pessoa da cultura, da tradição”. “O congado mineiro perde um grande capitão, um cara da resistência”, completa Tizumba.

Os Carolinos em Aparecida do Norte // foto Netun Lima

Os Carolinos em Aparecida do Norte // foto Netun Lima

A despeito dessa importância para a cultura e para a religiosidade da cidade, a morte de Leca não está nos jornais, assim como tem pouca visibilidade o próprio congado, uma das manifestações mais tradicionais e presentes em Belo Horizonte. “Estou triste demais. A morte de alguém tão importante para nós, para o congado, para a cultura, tinha que ser noticiada. É um alento essa matéria”, conta Tizumba.

Porém, o preconceito, as dificuldades financeiras, o avanço das igrejas evangélicas ou mesmo a morte de um grande capitão, não são capazes de calar os tambores na Irmandade Os Carolinos. “A gente só não perdeu a motivação do congado. Vamos continuar. Vamos continuar, com certeza”, avisa Neusa.

Os Carolinos em Aparecida do Norte // foto Netun Lima

Os Carolinos em Aparecida do Norte // foto Netun Lima

 

 

Julia Moyses Julia Moyses (6 Posts)

Jornalista e gestora cultural. É editora da Revista Marimbondo e do blog Mais Marimbondo, e sócia da Canal C - Comunicação e Cultura


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