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Não será possível

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Dois e-mails chegam à minha caixa de entrada no dia 11 de junho. O primeiro, da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, anuncia o Concentra BH, uma extensa programação cultural publicada no Diário Oficial do Município como “Programação do Arraiá de Belô na Copa das Confederações”. Serão doze dias, 31 shows e diversas apresentações de DJs na Praça da Estação. A Praça já está cercada, com mega estruturas montadas e ostensiva réplica de uma lata Brahma que, não bastasse ser gigante, é iluminada e brilhante.

O segundo e-mail era uma nota de repúdio do Centro Nacional de Defesa de Direitos Humanos da População em Situação de Rua e Catadores de Materiais Recicláveis intitulada “Violação de Direitos da População em Situação de Rua em Belo Horizonte”. Nela, o CNDDH, instituído em 2009 pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, nos informa que cem moradores de rua foram assassinados em Belo Horizonte nos últimos dois anos, dezoito já em 2013, dois na madrugada do dia 10 para o (fatídico!) dia 11. A nota também denuncia a violência institucional contra essa população, incluindo violência policial e ações higienistas, como retirada de pertences e uso de jatos d’água, e menciona o temor de que, com a Copa das Confederações, “as ações de violações contra a população de rua se intensifiquem ainda mais”.

Como publicado em diversos jornais e em denúncias que se espalham pelas redes sociais, tal temor já virou realidade. Ao que tudo indica, a vulnerável população em situação de rua de Belo Horizonte está sendo recolhida compulsoriamente ou expulsa em virtude da tomada de seus pertences.  A Prefeitura  nega a ação em nota oficial, mas fica difícil encontrar outra explicação diante de tantas evidências, de depoimentos de moradores de rua ou de pessoas ligadas aos movimentos sociais e, principalmente, da constatação de que essa população não está mais sendo encontrada em lugares habituais. Um exemplo disso, é o Viaduto Santa Tereza, onde causou espanto o repentino sumiço das pessoas que ali ficam ou dormem.  Um grupo tenta se articular via Facebook em rondas para flagrar as ações, mas são muitas kombis brancas, agentes municipais e policiais para poucas pessoas realmente dispostas a lutarem por uma causa tão marginal quanto aqueles a quem o estado volta seus braços de ferro.

Para além do horror da violação dos direitos humanos e dos motivos fúteis que a motivam (quais não seriam?), é impossível não se tocar pela contradição entre essas duas cidades que me chegaram pelo e-mail e que, diariamente, se chocam. A cidade da alegria, dos shows – mesmo que na Praça fechada -, dos grandes eventos, estruturas, telões, balões, dancinhas ensaiadas e parafernália tecnológica, é também  cortina de fumaça para a cidade dos horrores da madrugada, da violência, da desolação, do cinismo, da falta de dignidade.

Na história recente de Belo Horizonte, artistas e demais agentes culturais  foram um grupo fundamental na articulação de um movimento de resistência à uma política municipal e estadual higienista. Colocaram-se ao lado de ideais humanistas e libertários, e marcharam de mãos dadas com as populações das áreas ocupadas. Ocuparam, eles mesmos, as ruas, fizeram o carnaval de rua da cidade se fortalecer e transformaram a Praça negada em praia democrática. Instituíram o Conselho Municipal de Cultura e exigiram a presença de representantes da população em situação de rua nas discussões sobre o Corredor Cultural Estação das Artes, elegendo as demandas dessa população como as mais importantes do processo.

Ao que parece, a Prefeitura aprendeu direitinho as lições do primeiro mandato e não mais ignora esse grupo pequeno, porém barulhento. Nem tampouco, busca dialogar com ele. A escolha é por passar nas mesmas políticas arcaicas um verniz de frescor, lançando mão, pasmem, de linguagens e de métodos justamente dos movimentos que lhes são contrários. A tentativa de cooptação foi evidente durante a campanha, com a menção do então candidato Márcio Lacerda ao carnaval de rua, e está gritante nessa Copa das Confederações, incluindo a “escalação” até de bandas que embalaram a antológica festa Chupa essa Laranja. Todos os dias, a programação abre com um polêmico FlashMob, uma ação que visa criar um movimento de adesão espontâneo da população para ir dançar na Praça uma coreografia já disponibilizada nas redes sociais. Em março de 2012, a prefeitura junto com a Polícia Militar, levantaram  a fracassada bandeira da proibição e criminalização de mobilizações dessa natureza. Agora, é a PBH que promove, via Fundação Municipal de Cultura, justamente um FlashMob, justamente no palco emblemático e dileto dos que lhe dizem não.

Pelos próximos dias, não será possível me juntar à multidão embalada por esporte, música e cerveja. Não será possível assistir aos shows dos amigos que subirão naquele palco ou torcer pela seleção nos jogos. O horror cometido em nome disso é grande demais para ser ignorado, como desejaria a Prefeitura, a Fundação e quem “só quer curtir, por favor, me poupem”. Pelos próximos dias, enquanto muitos estarão em festa, chorarei essa cidade midiática e fascista, construída também, para meu profundo desapontamento, pela arte.

Foto Laura Fonseca

Foto Laura Fonseca

Julia Moyses Julia Moyses (6 Posts)

Jornalista e gestora cultural. É editora da Revista Marimbondo e do blog Mais Marimbondo, e sócia da Canal C - Comunicação e Cultura


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