Navigation Menu+

José e a Justiça

por

“Rui Barbosa” foi o nome gravado no teto que José leu em voz baixa enquanto aguardava o julgamento. Ele nunca tinha estado em um Palácio, ainda mais em um que traz “Justiça” no nome. “Justiça é uma palavra estranha”, pensou José, mas achou melhor não dividir com ninguém, assim como não dividiu a surpresa que lhe causava o local: lustres de cristais, tapetes vermelhos, escadaria de mármore, homens e mulheres importantes de vestidos longos pretos.

O que seria julgado naquele dia era se José tinha direito ao que lhe pertencia. Aquilo que pertencia a José mal enchia uma sacola: duas mudas de roupa, um tênis, um cobertor surrado e uma carteira de identidade. E não, não senhor, não havia sido roubado. Era seu, tudo seu, mas o Estado considerava que podia abordar José a qualquer hora do dia ou da noite, preferencialmente à noite, e levar suas coisas, suas poucas coisas que mal enchiam uma sacola. Por mais absurdo que isso possa parecer, José entendia muito bem os motivos. Ele e suas coisas, mesmo sendo poucas e mal enchendo uma sacola, eram indesejáveis demais para ficarem à vista. “À vista de quem José?”, poderiam ter questionado se um dia o tivessem escutado. “Das pessoas de bem”, responderia ele. “Rui Barbosa foi uma pessoa de bem? Com certeza”, perguntava e respondia para si mesmo enquanto aguardava o julgamento.

Quando a advogada vestiu o vestido preto para falar para as pessoas importantes, José e seus companheiros ficaram de pé e de pé permaneceram. Dela, José escutou que o Estado, ao lhe tomar seus pertences, estava lhe impondo um tratamento desumano e cruel. O Estado, para José, era formado por policiais e fiscais em kombis brancas. O Estado, para José, tinha cassetete, regras impostas de madrugada, pontapés de interromper sonos, e nenhuma humanidade, e nem o menor constrangimento em ser cruel. O Estado, para José, não quer que ele exista, sonhe ou possua suas poucas coisas que mal enchem uma sacola.  A advogada ainda falou de amor e José achou bonito e sentiu-se defendido.

No momento em que a palavra passou para as pessoas importantes que também vestiam vestidos pretos e ficavam do outro lado, onde tinha tapete vermelho e garçom, José ficou com as mãos geladas. Precisava das suas coisas mas, precisava, sobretudo, poder tê-las. “Valha-me, Jesus”, rezou baixinho como a avó tinha ensinado quando ainda era pequeno. “Valha-me, Rui Barbosa”, emendou por garantia.

“Poucas vezes eu tive a oportunidade de ver uma violência tão palpável, tão clara, tão presente”, foi como começou. Em meio a frases que afirmavam seu direito à cidadania, seu direito às suas coisas e a ser considerado e respeitado, José chorou. Todos choraram e, de pé, de mãos dadas, ainda escutaram que o Estado, além de desumano e cruel, estava sendo fascista, nazista. Escutaram que moradores de rua não eram cidadãos de segunda classe. Por unanimidade, o Estado estava errado e José estava certo. Todos se abraçaram e José pensou que “justiça” era mais do que uma palavra estranha.

foto julia moyses

Julia Moyses Julia Moyses (6 Posts)

Jornalista e gestora cultural. É editora da Revista Marimbondo e do blog Mais Marimbondo, e sócia da Canal C - Comunicação e Cultura


Pinterest

Fatal error: Uncaught Exception: 190: Error validating application. Application has been deleted. (190) thrown in /home/storage/e/a6/6c/revistamarimbondo/public_html/mais/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273