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Certidão de Nascimento

por

Maleta. Tomar umas cervejas, jogar conversa fora. Centro da cidade. Nossos centros sem saber se deslocam. O futuro é pedra pouco lapidada e torta. A dureza dos rostos secos. Nossas distâncias, solidões e guetos.

Jéferson chegou vendendo bala. Sabe como é. Fugi. Saí de fino. Foi-se, bravo, o menino.

Davi chegou surgindo. Pediu dinheiro. Insistiu tossindo. Pediu comida. Pediu fundo.

Tudo existe e à tarde – já é tão tarde – e tudo triste. Definições em contraste. Prevaricação. Predicação. Amor tardio. Noite.
Devorava o prato. Atropelava comida. Mastigava palavras de alegria. Cantava e sem querer sorria. Falava e comia

Os opostos. Fome de atenção. Contrapostos. “A vida que podia ter sido e não foi./Tosse, tosse, tosse.”

Tinha seis no máximo. Mentiu que tinha oito sem me olhar no rosto.

Estrelas violetas contra um fundo branco que resiste. A prata convertida em cinzas. Pó. Suor metal. Sal. Sujeira e limbo.
Queria. Menino quer. Eu quis. Deu gosto dar o que pedia.

Nuvem. Chuva ou orvalho – que importa? Só a madrugada compreende que o sol é coisa morta. Cinza de lareira, lar em desarticulação. Fragma. Pedaços que nunca mais se juntam (se é que estiveram presos um dia). Correntes que desatam. Torrentes. Covardias.

Demos o dinheiro. Saiu correndo. Voltou. Pincel, tinta guache e pedindo folha.

Arco menos íris e mais fosco. Cores frias de Osíris. Gelo. Meio dia turvo, meio sem metade. Pouco tácito saudade.

Combinamos de não sujar a mesa. Fez cara de ranzinza. Rasgou folha pra limpar o pincel. Não me deu a mínima.

Um trago ao que nada importa. Bebida em bafo quente. Hálito sentido. Boca. Língua. Trago urgente. Beijo em pessoa-porta.

Ficou transformando bar em céu. Absorvendo aquele momento mínimo. Perguntava se o rio era vermelho ou rosa. Tinha apenas quatro cores. Muita prosa.

Quase. Uma página se consome em linhas que se entortam. Signos. Um zodíaco em itálicos, riscos baixos, rabiscos em caixas-altas onde se ignoram.

Jéferson voltou. Fez estranheza. Davi pintando naquela mesa.

Quem te deu?
Fez que nem ligou.
Deixa eu pintar também?
Você não tem tinta!
Ô Davi, deixa que ele pinta.
Ele não tem pincel!
Vô ganhá um dinheiro ali e compro um.
Onde você comprou?
Quanto custa?
Deixa o chiclete aí. Toma.

Poesia-vício. Falta. Ilusões que se denotam. Nada carregado. Chuva. É chuva indiferente. Seca. Sertão de notas. Silêncio de areia e vidro e espelhos e reflexos quebrados. Azar de sete séculos. Culpa usurpa e sempre nossa.

Demos o dinheiro. Saiu correndo. Voltou. Pincel na mão e pedindo folha.

Sujo. Nu e molhado. Expurgo infecto de machucados. Não se brota. De nota nada de troca denota a falha falsa de fala torta. Calvo e desdentado. Sangue. Choro de recém-nascido, desespero. Dor, revolta.

Por um momento tudo esquecimento. Dois meninos brincando cores.

Nunca. Agora a vida é norma. Chuva. Folha leve que desbota. Tinta alucinógena. Nada que aparenta amanhã me traz de volta.
Jéferson foi vender chicletes. Davi foi fazer dinheiro. Sumiram correndo.

Sereno ou chuva ou meio ou tarde ou dia encarde. Somos feitos paisagem. Tudo resiste lorota.

Ficaram os desenhos. Daqueles que pediam se esquecendo.

foto: Angelo Batista

foto: Angelo Batista

Sergio Mitre Sergio Mitre (1 Posts)

Poeta, historiador e jornalista. Vive em Belo Horizonte, onde há anos participa de recitais, além de pedalar palavras no seu blog www.opoetadebicicleta.zip.net


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