Navigation Menu+

As catadoras, a cidade e o filme

por

Em entrevista à Mais Marimbondo, Marcelo Reis fala de seu primeiro longa metragem, o premiado documentário Aterro

aterro_marcelo_reis_03

Em Aterro, sete mulheres pioneiras na catação de lixo no Brasil contam a história do antigo lixão de Belo Horizonte – em atividade até 1975 -, onde hoje fica o bairro Morro das Pedras. Um dos méritos do filme é resgatar, por meio das memórias e histórias individuais, episódios ainda pouco conhecidos da história da capital, e também problematizar a questão atual da destinação dos resíduos e o polêmico sistema de aterragem. As depoentes quebram dicotomias e ideias pré-concebidas ao descrever o que o lixo significou em suas vidas, a relação com a emancipação, com a sobrevivência, com a constituição das famílias e com a vida em comunidade.

Você disse em entrevistas que não encontrou personagens significativos masculinos. O que essa voz exclusivamente feminina traz para Aterro?

Acredito na força do simbólico e do verbal, portanto o filme só é o que é por ser narrado por mulheres. A Sabedoria, no campo espiritual, é uma emanação feminina, e essa é a principal carga pretendida com o filme: compartilhar com a cidade a sabedoria e a visão de mundo delas. Só depois de finalizado vejo como essa carga ultrapassa Belo Horizonte e pode ecoar por qualquer lugar onde existam humanos organizados em sociedade.

Por que a opção por uma linguagem mais tradicional na concepção do documentário?

Tirando um trabalho inicial, assinado por um coletivo, minha opção até esse momento é por um jeito meio ortodoxo de fazer documentário. Mesmo sabendo que, quando existe uma câmera ligada, o real já não acontece (e na verdade questiono a própria definição e existência do “real”), eu não gosto muito de propor cenas e situações ficcionais aos personagens e outros elementos do filme. Vejo que quase tudo pode ser extraído daquele momento de encontro entre o entrevistado e o entrevistador. Também sempre tenho dificuldade de adotar uma trilha sonora, ainda que eu ache que existam documentários fantásticos que conseguem usar a música de forma honesta na condução do filme e do espectador. Mas especialmente no Aterro, pela responsabilidade de um trabalho de recuperação de memória de pessoas e da cidade, optei pelo simples. O mais distante do tradicional foi mesmo a escolha da rota do lixo permear toda aquela conversa, além de um tratamento de cor que desse uma cara ao filme.

aterro_marcelo_reis_12

Aterro foi feito com recursos do Fundo Municipal de Cultura, pressupomos, portanto, que não tenha sido uma produção cara, levando-se em consideração as cifras para as produções de longa metragens. Qual foi a estratégia para viabilizá-lo?

Sim, o Aterro foi feito com menos de 10% do que se considera baixo orçamento para um longa no cinema nacional. O primeiro ponto foi contar com a coprodução da Postura Digital, produtora do Guilherme Reis, nosso diretor de Fotografia. Toda a infraestrutura de equipamento foi parcialmente bancada pela Postura, num custo abaixo de mercado. O segundo ponto, já previsto no projeto, era lidar com uma equipe reduzida, com apenas quatro pessoas, o que até favorece a tranquilidade no set de filmagem para as entrevistadas. O terceiro ponto é editar o filme em casa, na minha ilha pessoal, visto que a pós-produção não carece de nenhum recurso avançado de hardware ou software. Dentro desse ponto fica claro a minha multitarefa, que faz o filme ficar viável: fui diretor, produtor, produtor executivo, pesquisador, editor, finalizador de áudio, motorista, office boy, enfim. Um último ponto são os apoios empresariais que acreditaram no projeto quando ele ainda era uma ideia. E claro, preciso agradecer as boas amizades que proporcionam que serviços diversos fossem feitos com poucos recursos.

Aterro tem o mérito de não escorregar na espetacularização da situação das personagens. Como se deu o processo ou quais foram os recursos para minimizar as relações de poder durante a filmagem? Como se deu para você, enquanto diretor, a transformação do objeto em sujeito?

A relação com as sete entrevistadas começa com a minha escolha pelo distanciamento temporal entre a pesquisa e a entrevista. Acredito no momento do encontro, que ele é fundamental para que tudo que precisa ser falado seja falado. Portanto, fiz de tudo para que a gente se conhecesse de verdade com a câmera ligada. E quando existe essa verdadeira vontade de conhecer o outro, some a relação de poder do documentarista e do documentado. Acho que consigo também alcançar vários tipos de linguagem e fiz de tudo para que meu discurso nas perguntas fosse o menos “de fora”. Uma outra preocupação era a da idade, que minha aparência demasiado jovem pudesse comprometer minha credibilidade com elas. O que acho que não ocorreu. Destaco aqui a presença da Patrícia Vieira (pesquisadora e produtora do filme), que esteve comigo desde o início da empreitada. Ela é moradora do Morro das Pedras e acredito que contribuiu muito com esse clima de confiança entre a equipe e as sete mulheres.

Mesmo não indo pelo caminho do “denuncismo”, em Aterro uma denúncia acaba sendo feita ou, ao menos, chama-se a atenção para a situação delicada em que se encontra o Aterro em Sabará. Gostaria que você explicasse o porquê da escolha do título. Por que “Aterro” passou a dizer mais sobre o filme do que “Lixão”, por exemplo?

A escolha do nome foi muito baseada na força da palavra. “Aterro” funciona. “Aterro” tem uma carga forte, da relação com a terra e com a Terra. Numa conversa com o tradutor do filme, Andrés Schaffer, falava com ele nas várias possibilidades de nomes “legais”, mas que tinha um bem simples e forte, mas que apresentava um pouco dessa contradição técnica: Aterro Sanitário X Lixão. Quando falei “Aterro” vi que ele achou que eu tinha encontrado o nome, além de lembrar que em várias outras línguas existe a raiz “terror”, que não tem nada a ver com aterro, mas que poderia despertar interesse. Sim, é uma escolha muito estética.

A meu ver, o documentário ganha em potência quando as personagens assumem o discurso de especialistas sobre a produção e o destino do lixo. Como essa parte dialoga ou serve de contraponto para a falácia da sustentabilidade?

Sempre gosto de esclarecer que toda a intenção inicial do filme era de resgate da memória da cidade e das histórias de vida dessas pessoas. Mas a partir do meu senso crítico com os modos de viver humanos, já havia um plano de traçar o caminho do lixo pela cidade. Os caminhos finais do lixo casam muito bem com a visão crítica das personagens, seja o caminho dito “certo”, o da reciclagem, ou o caminho “errado”, o da aterragem. Elas como pioneiras na reciclagem com um discurso e práticas autênticos apontam um caminho quase óbvio ou, no mínimo, de bom senso. Alguns poucos dados no filme deixam claro também que a escolha pela reciclagem é rentável, o que desconstrói o discurso inocente de reciclar “pelo bem do planeta”. Digo inocente porque ele não convence as pessoas (cidadãos), a classe política e as empresas. Se você provar que dá dinheiro, as pessoas podem ser sim convencidas de que algo é importante. Eu particularmente não acredito no conceito de sustentabilidade, pois minha visão do mundo, muitas vezes construída como espectador de documentários, me mostra que a relação humana sobre a Terra não é nada sustentável e não deve deixar de ser assim. Acredito na redução de danos e em pequenas revoluções pessoais ou comunitárias. Espero que o filme sirva para isso.

aterro_marcelo_reis_11

O que Aterro mudou na sua própria relação com o lixo e com, até mesmo, a cidade?

O Aterro me aproximou um pouco mais das pessoas que lidam com o lixo da cidade, sejam os coletores funcionários do serviço de limpeza urbana, sejam os catadores. Minha relação com o lixo não mudou muito, continuo separando meus resíduos em casa, com alguma dificuldade de espaço físico e sem nenhuma ajuda do poder municipal.

Quem quiser saber mais sobre o filme, onde e quando ele será exibido e as possibilidades de adquirir o DVD, o site é www.aterrodoc.com

Julia Moyses Julia Moyses (6 Posts)

Jornalista e gestora cultural. É editora da Revista Marimbondo e do blog Mais Marimbondo, e sócia da Canal C - Comunicação e Cultura


Pinterest

Fatal error: Uncaught Exception: 190: Error validating application. Application has been deleted. (190) thrown in /home/storage/e/a6/6c/revistamarimbondo/public_html/mais/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273