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Escritas da cidade no ar

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Em entrevista à Mais Marimbondo, a pesquisadora Milene Migliano fala do projeto Mapa dos Graffitis

Localizar, registrar, catalogar e publicar.  O projeto Mapa dos Graffitis (mapadosgraffitis.org) busca criar uma cartografia dos grafites, pixações, estêncils e outras formas de diálogos urbanos inseridos nos muros da cidade. A construção é colaborativa, ou seja, o projeto é também um convite para que as pessoas registrem o que a cidade anda lhes dizendo.

Ser imaginário produzido por Thiago Alvim (Rua Jacuí, Floresta)

Ser imaginário produzido por Thiago Alvim (Rua Jacuí, Floresta)

Como foi concebida a ideia do Mapa dos Graffitis? Queria que você falasse da sua trajetória pessoal e profissional que a levou a desenvolver esse projeto.

Sempre fui interessada em acompanhar os graffitis pelas cidades que já morei. Ao chegar ainda criança em uma cidade nova aprendia os caminhos observando o que estava escrito pelas ruas. Lembro-me que nas andanças entre São Paulo, Minas e Paraná, brincava com minha irmã de encontrar nomes de outras cidades dos carros e ser um êxtase achar o nome de uma das localidades que já havíamos morado. Ao chegar em Araraquara, no interior do São Paulo fomos morar em frente ao cemitério São Bento, no centro da cidade. Os muros cor de salmão eram completamente tomados por uma heterogeneidade de inscrições e passei a acompanhar como novas pixações iam ali tomando parte. Quando mudei-me para BH para cursar comunicação na federal, encontrei com o vigia, pequeno lambe-lambe, nos lugares mais inusitados da cidade, e ele foi o meu primeiro guia na cidade. Percebi que as pixações compunham os grafites do projeto Guernica, por toda a capital, agregando outros valores aos desenhos coloridos.

Em 2004 comecei a trabalhar no Centro Cultural da UFMG e a caminhar bastante pelo centro de BH e para casa. Com minha entrada no Projeto Cartografias Urbanas, coordenado pela prof. Regina Helena Alves da Silva, compreendi a possibilidade de trabalhar com o registro e pesquisa destes detalhes que estão pela cidade. Entrei no mestrado no Programa de Pós- Graduação da UFMG e pesquisei os mapas de sentido produzidos pelas situações comunicativas que se instauram nas paredes, viadutos, grades, portões, postes, cercas, pontos de ônibus e alto dos prédios. Chamo estas relações de diálogos públicos, categoria de análise dos espaços de encontro visões de mundo.

Como você compreende essa dimensão comunicacional da cidade e qual a escrita de Belo Horizonte que Mapa dos Graffitis procura retratar?

As cidades são os espaços onde todo tipo de gente se encontra e circula, fazendo uso das ruas, equipamentos urbanos, placas e sinais de trânsito, parques e praças. Uma das maneiras de usar a cidade é se apropriando dos suportes para deixar mensagens que você gostaria de dizer, para todo mundo que passar ou apenas para um grupo específico. Essas interações comunicativas podem ter relação com o espaço onde são escritas, indicando por exemplo que ali tem um buraco ou pedindo para os donos dos cachorros que visitam o poste de frente de sua casa coletem as necessidades dos animais de estimação. Podem ter relação com alguma situação da política local, como encontramos pela cidade os pixos de Fora Lacerda ou os grafites pedindo paz no Aglomerado da Serra, fazendo uma pedido contra a violência policial desnecessária que sofrem os moradores da periferia. Podem simplesmente nos dar o prazer de ler uma pequena narrativa, como são os micro-contos das meninas do Palavras em Cantos, que espalharam sua poesia pelo centro de BH, em madrugadas de colagem.

Todas essas práticas culturais chamo de escrita da cidade, uma escrita que pelo simples gesto de ler e realizar as conexões entre os textos e sua experiência urbana você também já é um praticante, já toma parte. E podem ser de tantas maneiras as interações comunicativas que poucos escapam desse lugar de comunicação que compõem o espaço público mais democrático que temos hoje: as ruas das cidades.

No Mapa as práticas de escrita da cidade estão elencadas pelas categorias pixo, grafite, sticker, estêncil, lambe-lambe e cartaz, por enquanto. Qualquer pessoa pode colaborar e adicionar outras maneiras como inscrição, raspagem, apagamento. O Mapa dos Graffitis busca retratar esses lugares de diálogos públicos, onde várias escritas vão se justapondo e compondo sentidos sobre um espaço, persegue os textos da cidade que me chamam atenção e que não consigo deixar de registrar, como os que trazem à tona as desigualdades sociais contemporâneas. Mas essa é apenas uma maneira de ler a cidade, essa que apresento pra vocês. Qualquer um que se dispor a ler e escrever no espaço urbano, vai formar outros sentidos, diferentes dos que já engendrei, elencando suas próprias vivências.

Grafite realizado por Binho Barreto, no bairro Betânia, no mutirão em homenagem ao skatista Caveira, atropelado e morto na Avenida Afonso Pena em dezembro de 2012

Grafite realizado por Binho Barreto no mutirão em homenagem ao skatista Caveira, atropelado e morto na Avenida Afonso Pena em dezembro de 2012

O cartógrafo Jonh Bryan Harley disse que os mapas “reescrevem o mundo – como nenhum outro documento – em termos de relações de poder e de práticas culturais, preferências e prioridades”. Ele afirma que “o que lemos num mapa é tanto uma relação com um mundo social invisível e uma ideologia quanto uma relação com os fenômenos vistos e medidos na natureza”. Compreendendo a cartografia, portanto, como uma prática também política e cultural, o que Mapa dos Graffitis busca reescrever sobre a cidade?

Ao produzir o Mapa dos Graffitis quero enfatizar o quanto é importante para os cidadãos tomar parte da escrita urbana, mostrar quantas coisas são ditas e sabidas por pessoas ordinárias, que usam o espaço urbano no cotidiano e que comumente são excluídas de participar do planejamento urbano e dos processos comunicação midiático/hegemônico. E o quanto elas poderiam qualificar esses espaços se fossem ouvidas! O que temos reunido até agora no Mapa é apenas uma amostragem do que está sendo dito. Certamente, não pretendemos esgotar a diversidade urbana, não acreditamos que é possível produzir registros de tudo o que está pelas ruas: o importante é despertar as pessoas para que elas passem a realizar a escrita da cidade também. Para os que já a produzem, o mapa busca ser uma outra possibilidade de rede de encontros e relações, entre os grafiteiros de BH e diferentes pessoas de outros lugares, conectados na internet; e sem interesses comerciais! Para os outros pesquisadores da escrita urbana, o Mapa é uma fonte que pode nutrir as pesquisas e ampliar ainda mais a rede de relações de entendimento.

Qual foi a metodologia usada para a criação do mapa e qual o volume de material já cadastrado? Gostaria que você explicasse um pouco a lógica dos ícones, da navegação e como as pessoas podem contribuir.

Bem, a metodologia pode ser descrita em algumas etapas. A primeira foi produzir as fotografias, fase que começou muito antes de escrevermos o projeto pra Lei Municipal de Incentivo à cultura, isso quer dizer, desde 2005. Nas séries que produzi ao longo deste tempo, pude reparar que alguns lugares se constituem como espaços de diálogos públicos. Ao conversar com Paula, que produziu nossa arte gráfica, ficou claro que era preciso diferenciar nos ícones o que era apenas um registro de um graffiti, que são os balões verdes com o desenho de uma câmera fotográfica dentro, e o que era o registro um lugar onde ao longo do tempo muitos graffitis foram sendo ali publicizados, ou seja um lugar de diálogos públicos, marcado com os balões dentro dos ícones amarelos. Depois foi necessário organizar os registros fotográficos por data em que foram feitos e georefenciá-los no mapa disponibilizado pelo plugin desenvolvido pelo pessoal do mapasdevista.com.br. A plataforma base é o wordpress, ou seja, o mapa é na verdade um blog. Daí fomos pra etapa de marcação das entrevistas, que estão nos marcadores roxos, com o desenho de uma lata de spray no centro. Sabia que gostaria de conversar com alguns amigos que eram grafiteiros, mas não conseguia montar uma lista e definir quem seriam os entrevistados. Então, decidimos começar com Dereco, e ao iniciar a entrevista e descobri que ele tinha feito como seu primeiro lambe-lambe, o espaço branco, que tinha sido a primeira coisa que havia fotografado na cidade, ainda em 2004! Foi uma coincidência muito estimulante! Ao final da entrevista pedi ao querido que me dissesse quem eram as pessoas que ele pensava que seriam importantes de serem entrevistadas. E estes foram os próximos, que fizeram mais indicações, e conforme os nomes iam se repetindo, íamos, eu e Carol Antunes, fiel produtora e desbravadora dos rolês pelo campo em BH, realizando as gravações. Os sons captados foram tratados e editados apenas a pedido dos entrevistados, postados na plataforma goear.com, que disponibiliza espaço para postagens ilimitadas de registro sonoro. As 40 entrevistas tem entre 20 min e uma hora.

Para navegar você precisa acessar os posts, que ficam referenciados em cada ícone no mapa. Você pode escolher visualizando todos os ícones, ou apenas as categorias que deseja, usando o recurso de filtro, disponível no canto inferior direito. Uma outra maneira também é abrindo a seta que fica no meio da tela ao lado direito e entrar nas últimas postagens que foram feitas. Hoje, as últimas postagens que estão acessíveis foram realizadas pelo Olhesse Muro, coletivo de estudantes de comunicação que tem um blog (olhessemuro.tumblr.com) e uma página no facebook onde publicam os graffitis que fotografam pela cidade. Eles são os primeiros colaboradores do mapa e podem postar os registros que quiserem, fazer o georreferenciamento e marcar as categorias e as tags que quiserem: inclusive, criaram já a tag Olhesse Muro.

Na entrada do Taquaril a Ctor9-Crew, formada por Zack, Viber, entre outros, coloriu o nome que referencia a morada dos integrantes

Na entrada do Taquaril a Ctor9-Crew, formada por Zack, Viber, entre outros, coloriu o nome que referencia a morada dos integrantes

As pixações também estão presentes no mapa. Como você vê essa dicotomia criada entre pixação e grafite, e, em que medida a inserção da primeira forma de expressão é uma tentativa de romper essa lógica?

De prima gostaria de enfatizar que para mim todas as práticas de escrita da cidade são legítimas e compõem a cultura urbana. No Brasil, há um desentendimento na diferenciação entre as técnicas como a pixação (prática de escrita da cidade que tem como características básicas o traço rápido feito sobre o muro e o uso de apenas uma cor, seja com spray ou com rolinho) e o grafite, expressão que se utiliza de técnicas de desenho com rolinhos, compressores e latas de spray, e teve sua prática iniciada na composição de desenhos de letras e de personagens na cultura Hip Hop, nos anos setenta nos EUA. Esse desentendimento foi acentuado com a implementação da Lei do Graffiti, pela presidenta Dilma Rousseff (leia mais ao final da entrevista), que legitima a produção do grafite desde que o artista tenha a autorização por escrito do proprietário, qualificando a transgressão da demanda como pichação (essa sim com ch, já que é a prática desqualificada pelo sistema jurídico brasileiro). Concordo e compactuo com os praticantes da pixação, grafada com a letra x, que subvertem a língua portuguesa para se referirem aos seus gestos, que diferentemente de serem entendidos como crime, compõem seus modos de subjetivação no uso da cidade. Esses novos modos de ser e estar na cidade fazem parte da cultura urbana e não podem ser especificados por regras que delimitem a sua expressão criativa. Quem está autorizado e tem legitimidade para julgar se o que o escritor urbano está fazendo é um grafite ou uma pixação? Um policial, um crítico de arte, um especialista do Ministério da Cultura? Há relatos nas entrevistas do Mapa dos Graffitis que, na prática, podemos perceber que essa é uma das primeiras perguntas que precisa ser feita antes de se criar uma nova lei que vai regulamentar algo que já está assegurado pela constituição: o direito de manifestar-se e expressar-se nas ruas.

Ainda em relação às pixações, como vocês lidaram com a questão legal e da criminalização?

Bom, a pixação é tão criminalizada que tivemos muito cuidado para lidar com as informações que estamos publicizando. Diversas vezes sou chamada para dar minha opinião em reportagens, programas de debate na televisão e encontros acadêmicos para poder explicar que a pixação faz parte das práticas de escrita da cidade, como um grito, e que ele deve ser ouvido e não apagado e criminalizado. A pixação é a expressão que rebela-se contra a propriedade privada e essa afronta ao elemento fundante do capitalismo é combatida por todas as esferas que agem na manutenção do status quo. Nas derivas como pesquisadora, já debati mais de uma vez horas com a polícia para liberar praticantes e minha camera, que estava gravando a abordagem que os pixadores sofreram pelos policiais. Já fui intimada para depor na Delegacia do Meio Ambiente especializada em práticas de vandalismo, depois de realizadas as pixações na  prefeitura, durante a primeira Marcha do Fora Lacerda. Na minha adolescência, pixava as ruas das cidades que vivia, colocando letras de música e gritos de rebeldia contra as desigualdades que via pelas paredes, além de mensagens de amor para meu parceiro na época. Tal processo foi muito importante para eu ser hoje pesquisadora destas práticas. Diversos grafiteiros talentosos e legitimados pelo seu trabalho como professores e artistas qualificados, começaram também sua trilha na escrita da cidade pelo pixo. Essas informações estão nas entrevistas e tem a pretensão única de mostrar como são muitos os caminhos que podemos escolher para participar da dinâmica da cidade.

Por quais caminhos segue agora Mapa dos Graffitis?

Muitos caminhos! Primeiro estou ansiosa para saber se receberemos novos colaboradores, depois de lançarmos a plataforma, que poderão expandir o conteúdo já adicionado. Estou atenta aos editais para tentarmos ampliar o alcance do Mapa dos Graffitis para outras cidades. Agora que estou aqui em Salvador, estou trabalhando na produção de registros fotográficos das muitas expressões que se espalham pelas ruas curvas, seguindo o mar. Já recebemos também um convite para realizar uma oficina em BH. Vejamos como os caminhos vão se entrecruzando… Finalmente, preciso agradecer imensamente todos que contribuíram para o Mapa dos Graffitis estar no ar agora: grafiteiros e grafiteiras entrevistados e que estão mandando pelas ruas, todos parceiros da Filmes de Quintal, amigos e amigas que deram sempre amparo quando precisei, a equipe completa de desenvolvimento do projeto Mapa dos Graffitis – Carol Antunes, Diana Gebrim, Marina Sandim, Paula K, Marcos Macarena e Carlos Paulino!

Em 25 de maio de 2011, a presidenta Dilma Rousseff  sancionou uma lei que descriminalizou a prática cultural urbana de grafitar, mas criminalizou a prática da pixação e a venda de latas de spray para menores de dezoito anos e pessoas sem cadastro nas lojas. A ação governamental estimulou o debate sobre as práticas de escrita urbana na mídia impressa, no rádio, na televisão e na internet, além de suscitar debates nos coletivos de intervenção urbana. O parágrafo de maior mudança na Lei 12.308/2011 é : “§ 2o Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado, mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional”.

 

Julia Moyses Julia Moyses (6 Posts)

Jornalista e gestora cultural. É editora da Revista Marimbondo e do blog Mais Marimbondo, e sócia da Canal C - Comunicação e Cultura


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